Publicado 01 de Junho de 2015 - 14h24

Por Inaê Miranda

FOTOS: Janaína, feitas quinta-feira (28)

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Praças públicas nos distritos de Sousas e Joaquim Egídio, em Campinas, estão sendo utilizadas como clubes privados. Murados ou cercados, os espaços de lazer possuem diretoria e “sócios” e as mensalidades variam de R$ 30 a R$ 50. Em um deles, um grupo de 40 pessoas paga cerca de R$ 700 ao mês para jogar bola aos finais de semana. Os não-associados também pagam aluguel para usar o campo em horários previamente agendados. Os clubes ainda oferecem o serviço de bar. Segundo os diretores, todo o dinheiro arrecadado com o aluguel, mensalidade e com o bar é revertido para melhorias do espaço, manutenção e pagamento de funcionários. Alguns moradores, entretanto, reclamam que os espaços públicos não deveriam ter o uso cobrado ou venda de bebida alcoólica.

As praças são ligadas às secretarias de Esportes e de Serviços Públicos e duas delas receberão verba para reforma nos próximos meses. Uma das praças é a José Iório, localizada na Rua Antônio Iório. A segunda Praça é a União Nova Sousas, localizada na Rua João Batista Vinci. Ambas no distrito de Sousas. A verba para reforma é de R$ 350 mil, conforme previsão da Secretaria de Esportes de Campinas divulgada na última semana. A primeira vai ganhar cobertura da quadra poliesportiva e a segunda passará por reforma e ampliação do vestiário e campo de futebol. A terceira Praça de Esportes é a Jordão Cesarini, localizada na Rua João Valentin Santos Carvalho, no distrito de Joaquim Egídio. Esta última não está incluída no cronograma de obras da Secretaria de Esportes.

A Praça José Iório está sob a responsabilidade do Sousas Futebol Clube e é administrado por uma diretoria. Conforme José Luís Oliveira, um dos diretores, há três times associados e cada integrante paga uma mensalidade de R$ 30. O total não chegaria a 100 pessoas. “A gente usa a verba para manter o campo, a grama, pagar um funcionário, pagar despesas de água e luz, trocar equipamentos quebrados, fazer reparos, comprar bolas, material de limpeza. Se colocar tudo na ponta do lápis dá mais de R$ 3 mil. Fora o que a gente põe do próprio bolso”, afirmou Oliveira. Um grupo de 40 pessoas não associadas, mas que utiliza o campo com frequência paga R$ 700 por mês. “Quem não paga R$ 30, paga a taxa de R$ 700. É um grupo que joga das 8h às 10h”, explicou.

Além da mensalidade, quando tem campeonato, os times pagam uma taxa para a arbitragem. “Dos adultos cobramos uma taxa para pagar os árbitros”, disse Oliveira. A praça tem um bar, que funciona sem alvará. Segundo Oliveira, o objetivo também é arrecadar verba para investir no local. “As empresas não ajudam mais ninguém. Dinheiro para patrocínio não se consegue mais. Se você não tiver alguma coisa para vender, fica ao Deus Dará e vai ter que mandar funcionário embora. Como manter uma praça como esta sem vender uma cerveja. Tudo o que a gente faz aqui é investido aqui dentro da mesmo. Tudo para melhorar”, afirmou. Segundo Oliveira, a Praça foi doada para o Sousas Futebol Clube e existe um documento comprovando a doação.

As cobranças são necessárias, segundo Oliveira, em razão da ausência do poder público. “Antigamente, a Prefeitura dava um funcionário. Ela tirou esse funcionário e hoje é a gente quem custeia. A gente vai tocando assim. Se ainda tivesse na mão da Prefeitura não existia mais”, acrescentou. Ele ressaltou ainda que o espaço é aberto a todos. “Nunca fechamos para ninguém”.

Ainda em Sousas, a Praça de Esportes União Nova Sousas está fechada para reforma. A verba, segundo Clóvis da Silva Silvino, presidente, a verba vem da mensalidade dos sócios. “Estamos trocando a grama, fazendo a pintura de banheiros e vestiários, troca de telhados”. A taxa mensal é de R$ 200 por time e os três colaboram segundo Silvino. “Outros times que quiserem podem jogar. Só precisam agendar horário comigo. Os times fora que vem jogar a gente cobra R$ 50 para apitar o jogo. Se for só para brincar não tem a taxa do juiz”, explicou. No espaço também funciona um bar cuja verba arrecadada é revertida para o espaço. “A Prefeitura ajuda com o trator para a manutenção”, disse.

A Praça de Esportes Jordão Cesarini, em Joaquim Egídio foi adotada por Paulo César Caetano. “Adotamos a praça, mas a gente não coloca dinheiro do bolso. Cada um que joga aqui colabora e todo o dinheiro é revertido para a praça. Já fizemos vestiário, trocamos encanamento. O pessoal que vem jogar aqui colabora com R$ 50 por time. Os quatro patrocinadores pagam R$ 250 por mês”, explica. No espaço também funciona uma escolinha de futebol coordenada por Caetano. A colaboração que o pessoal faz também é para a escolinha. “As pessoas vem aqui, veem o campo bonito e o espaço bem cuidado e acham que é magia, ou que é o poder público quem cuida. Se tem alguém reclamando, deveria vir ajudar”, queixou-se. No espaço também funciona uma lanchonete. “Depois do jogo, o pessoal faz um churrasquinho. Tem cerveja em lata. Estamos levando um lazer”, disse.

Reclamações

Para alguns moradores dos distritos, as Praças de Esporte se transformaram em clubes privados. “Tá virando o clube do bolinha, onde meia dúzia de pessoas toma conta. Não acho justo cobrar para jogar bola em espaço público e nem vender bebida alcóolica. A Prefeitura agora vai gastar dinheiro público para beneficiar o clube do bolinha, sendo que tem bar lá dentro, vendendo bebida alcoólica e faturando horrores de dinheiro com bebida cara”, reclamou o comerciante Doraci de Almeida Correia. “Eles cobram aluguel para a gente utilizar o campo. Acho que se o espaço é público, não pode ser cobrado”, afirmou um morador do distrito que se identificou apenas como Rodrigo.

Prefeitura

O Secretário de Esportes, Dário Saadi, afirmou que os espaços são praças públicas que pelo próprio uso foram transformadas em praças de esportes. Desta forma, têm gestão compartilhada pelas secretarias de Serviços Públicos e de Esportes. As duas Pastas devem se reunir esta semana em caráter de urgência, segundo Saadi. “Já entrei em contato com a Secretaria de Esportes e vamos fazer uma reunião para avaliar a situação dessas praças, verificar se há algum termo de concessão ou permissão de uso para as entidades que cuidam desses espaços. Sobre a questão dos bares e bebidas alcoólicas vamos checar também qual a situação de legalidade”, afirmou Saadi.

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Inaê Miranda