Publicado 28 de Junho de 2015 - 9h00

Por Thaís Jorge

"Tudo o que for enxergado com leveza é superbenéfico. Não vamos confundir com negligência, com não dar a atenção e o cuidado que uma questão exige, mas olhar os problemas com bom humor ajuda muito"

HENRY DAITIRO YAMAMOTO/DIVULGAÇÃO

"Tudo o que for enxergado com leveza é superbenéfico. Não vamos confundir com negligência, com não dar a atenção e o cuidado que uma questão exige, mas olhar os problemas com bom humor ajuda muito"

Foto: HENRY DAITIRO YAMAMOTO/DIVULGAÇÃO

"Tudo o que for enxergado com leveza é superbenéfico. Não vamos confundir com negligência, com não dar a atenção e o cuidado que uma questão exige, mas olhar os problemas com bom humor ajuda muito"

"Tudo o que for enxergado com leveza é superbenéfico. Não vamos confundir com negligência, com não dar a atenção e o cuidado que uma questão exige, mas olhar os problemas com bom humor ajuda muito"

Quem já passou por um período de crise ou conflito pessoal sabe quantas coisas podem ser afetadas num momento como esse. O ponto crucial para superar essas fases e, principalmente, tirar delas bom proveito é a maneira de lidar com a situação. “Podemos perceber a necessidade de mudanças antes de os problemas virarem uma bola de neve e chegarem a uma proporção de crise. Mas, se ela vier, que seja bem-vinda. A crise é uma parte saudável da gente dizendo: ‘Já chega, agora não dá mais, você tem que mudar, tem que buscar se sentir melhor’”, analisa a psicóloga Graziela Bergamini, autora do livro Viagens de uma Psicóloga em Crise (Editora Saberes).

A obra narra o processo de autoconhecimento experimentado pela profissional num momento de crise, quando ela decidiu dar um tempo na faculdade e passar três meses na Índia, sozinha, para chacoalhar sua compreensão sobre a vida. A viagem é um plano de fundo para o livro, que reúne experiências da autora na busca por aprendizado e que, com uma dose de humor, convidam à reflexão. Nesta conversa com a Metrópole, Graziela fala da iniciativa de colocar suas histórias no papel e divide dicas para um novo olhar sobre as crises, enxergando nelas oportunidades de transformação pessoal.

Metrópole – A ideia de escrever um livro surgiu em um momento de crise? Como foi?

Graziela Bergamini – Sim. Eu havia acabado de voltar ao Brasil, depois de um período morando em Portugal com meu marido e filhos. Retornamos tendo que recomeçar nossas profissões. E eu estava desanimada, cansada, sem força para montar um consultório. Um dia, meu marido começou uma conversa comigo sugerindo que eu escrevesse um livro sobre minhas viagens e crises. Sempre tive períodos de crises existenciais, mas aprendi muito durante os processos de autoconhecimento e obtive enormes recursos para sair delas. Ele me via como uma pessoa que poderia ajudar os outros a lidarem com essas situações a partir de exemplos que eu dava de mim mesma.

O senso comum pode pensar que seja mais fácil para um psicólogo lidar com problemas, crises e frustrações. Você concorda? O conhecimento teórico lhe auxiliou em algum desses momentos?

Essa pergunta é bastante interessante porque a teoria, por ela mesma, não ajuda. Os psicólogos que só estudam, mas não entram em seu próprio processo de autoconhecimento, têm limitação maior em facilitar o caminho de outras pessoas. O momento em que me senti segura para atuar como psicóloga, atendendo a pacientes, foi quando fortaleci meu próprio processo terapêutico, podendo entender melhor como eu funcionava, quem era a minha criança interna, em que acreditava e do que necessitava, como eram as minhas “máscaras”, do que me defendia e me defendo etc.

No livro, aparecem alguns detalhes até divertidos de sua passagem pela Índia. A viagem tinha que propósito? O que mais lhe surpreendeu?

Eu estava infeliz com meus relacionamentos, com meu curso, e não tinha uma relação boa com Deus, o Universo e tal. Sentia que meus pensamentos estavam estagnados, me causando vários problemas. Como gostava de viajar, pensei que sair do meu contexto e experimentar uma comunidade diferente ajudaria. Escolhi Auroville por sua proposta de vida diferente. Fiquei um tempo lá e depois saí pelo país. Aí foi quase como uma outra viagem. A Índia é muito interessante, mas as diferenças sociais são chocantes. A miséria está por todos os lados. Foi difícil estar sozinha lá por três meses. Muita gente vai ao país conhecer ashrams e escolas de ioga, e isso é diferente. Viajar sozinha, num roteiro meio improvisado, foi bem difícil.

Por que a Índia?

Porque sabia que a diferença cultural era intensa e eu amo essa diversidade. Também sabia que eles têm uma relação mais íntima com Deus e eu estava buscando me religar. Não buscava religião no sentido popular da palavra, mas me religar com algo maior do que eu, com um sentido maior. Acreditei que lá conseguiria essa conexão e, de certa forma, alcancei. A viagem em si não me causou transformação permanente. O que realmente provocou mudanças de pensamento e de comportamento foram meus processos terapêuticos.

Até que ponto a senhora acredita que as viagens auxiliem no processo de autoconhecimento? Ele precisa ser acompanhado de outras mudanças?

Acredito que, muitas vezes, a viagem pode nos ajudar a sair de um estado emocional, mas a duração dessa mudança é bem curta. Para ela ocorrer de fato e a longo prazo, penso que necessitamos de um suporte psicológico regular. Os métodos que priorizam a autoinvestigação e, ao mesmo tempo, oferecem novas formas de pensar são os que eu considero com mais poder de causar mudanças. No livro, falo do pathwork, um método de autoconhecimento que, além de oferecer técnicas práticas, explica em profundidade o funcionamento do ser humano em seu aspecto psicológico.

E essa crise pode ser enxergada com bom humor?

Bom humor é remédio. Tudo o que for enxergado com leveza é superbenéfico. Não vamos confundir com negligência, com não dar a atenção e o cuidado que uma questão exige, mas olhar os problemas com bom humor ajuda muito. A mensagem central do livro é mais ou menos essa, que podemos perceber a necessidade de mudanças antes de os problemas virarem uma bola de neve e chegarem a uma proporção de crise. Mas, ela se vier, que seja bem-vinda. A crise é uma parte saudável da gente dizendo: “Já chega, agora não dá mais, você tem que mudar, tem que buscar se sentir melhor”.

A senhora já está trabalhando em outra obra. Do que ela trata?

A história é mais ou menos na mesma linha do Viagens de uma Psicóloga em Crise. Falo de outros períodos em que morei fora do Brasil, conto histórias engraçadas e que, também, trazem reflexão. Países são pessoas e pessoas são pensamentos e comportamentos. Se mudamos pensamentos, mudamos comportamentos, mudamos pessoas e países. A previsão é que o livro seja lançado no final deste ano. 

Escrito por:

Thaís Jorge