Publicado 04 de Junho de 2015 - 5h30

A atividade econômica mais fraca voltou a puxar para baixo o mercado de trabalho brasileiro, com fechamento de postos com carteira assinada e geração de vagas informais, consideradas de qualidade inferior. Além disso, essas oportunidades não têm sido suficientes, e o número de pessoas desempregadas no Brasil aumentou em quase um milhão em um ano. Com isso, a taxa de desemprego em todo o País subiu a 8% no trimestre até abril de 2015, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.A taxa anunciada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é a maior da série, iniciada em janeiro de 2012. Apenas no trimestre até março de 2013 observou-se desemprego igualmente em 8%. Nos três meses até abril do ano passado, a taxa estava em 7,1%.“Isso é reflexo do que aconteceu no PIB. Se não gera trabalho, se a produção reduz, a consequência é essa”, disse o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo. No primeiro trimestre deste ano, o PIB, soma da renda gerada no País, caiu 1,6% ante igual período do ano passado, a maior queda neste confronto desde o segundo trimestre de 2009.Geração insuficiente

O Brasil gerou 629 mil vagas no trimestre até abril, o que significa avanço de 0,7% no total de pessoas ocupadas no País em relação a igual período do ano passado. Só que o aumento, além de ser menor do que no passado, não foi suficiente para acomodar todos que passaram a buscar trabalho no período. Com isso, a fila de desempregados cresceu em 985 mil - uma alta de 14% na população desocupada, a maior alta já verificada nesta comparação.O avanço do emprego informal também tem chamado atenção. Enquanto 552 mil pessoas com carteira assinada no setor privado foram demitidas em um ano, 1,024 milhão de pessoas declararam ter passado a trabalhar por conta própria. Essa categoria inclui uma pequena parcela de registrados com CNPJ, como o microempreendedor individual, e uma fatia maior de informais - por exemplo, um vendedor ambulante.“Há dificuldade de permanência do emprego e de geração de novas oportunidades. Então, o cenário que se mostra hoje é de perda de emprego, perda de qualidade de emprego e de uma geração de trabalho informal”, afirmou Azeredo.A piora no emprego não é o único sinal do desaquecimento da economia. O bolso do trabalhador também está ficando mais curto, diante da queda na renda real. No trimestre até abril, o rendimento médio caiu 0,4% em relação a igual período do ano passado, já descontados os efeitos da inflação.“De fato, os salários estão caindo, mas a queda da renda ainda é modesta”, afirmou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. Ele espera que as perdas fiquem ainda maiores ao longo de 2015, em função do ajuste na economia conduzido pelo governo e da inflação elevada.A taxa de desemprego também tende a seguir em alta. Na visão de Perfeito, deve chegar a 10%. Esse nível tornaria o processo de controle da inflação mais duradouro, principalmente em serviços, cujos preços sobem há alguns anos cerca de 8% e empurram o IPCA para a fronteira superior da meta perseguida pelo Banco Central (4,5%, com tolerância de dois pontos para mais ou menos). O economista-chefe da INVX Global Partners, Eduardo Velho, acredita que a taxa irá além, atingindo o pico de 11% em meados de 2016. Para ele, a deterioração no mercado de trabalho está na primeira fase, de aumento do desemprego, que deve ser seguida por queda mais forte na renda média real.Um cenário como esse afetará ainda mais o consumo das famílias e a economia como um todo e irá na contramão da expectativa do governo de que haja sinais de recuperação já no segundo semestre deste ano.“Esses dados adiam ainda mais a recuperação do PIB, para além do terceiro trimestre. Temos grandes chances de ter três trimestres seguidos de queda e alguma estabilização no quarto trimestre”, afirmou Velho.Entre as atividades, a construção e a administração pública cortaram, juntas, mais de 1,1 milhão de vagas. Enquanto isso, a indústria contratou 222 mil pessoas no trimestre até abril deste ano ante igual período de 2014, mas o movimento não é visto pelo IBGE como recuperação. (Da Agência Estado)