Publicado 29 de Junho de 2015 - 19h05

Se há alguns anos alguém dissesse que o Brasil importaria novelas turcas e elas fariam sucesso, essa pessoa seria motivo de chacota. Mas, em pleno ano de 2015, a Band resolveu apostar e, quem diria, acertou na mosca. A novela Mil e Uma Noites está muito longe de alcançar dois dígitos, mas os três pontos (às vezes, quatro) conquistados no Ibope têm feito a direção da emissora rir à toa. Cada ponto equivale a 67 mil domicílios na Grande São Paulo.A trama caiu no gosto do público, fez a cantora Laís virar a rainha da “sofrência” com a música Eu só Queria Te Amar e já abriu caminho para mais dois folhetins da mesma nacionalidade. Um deles — Fatmagul — estreará neste ano. O outro — Ezel — entrará no ar em 2016. O sucesso não é pouco para uma produção que tem uma protagonista chamada Sherazade, mesmo nome da heroína da famosa obra As Mil e Uma Noites, o que não é apenas uma coincidência. E por falar no nome da mocinha, pouco antes da estreia do folhetim, Diego Guebel, diretor geral de conteúdo do canal, comentou: “A gente até pensou em mudar o nome da personagem principal para que não houvesse confusão (com a polêmica jornalista Rachel Sheherazade, do SBT), mas desistimos”. A direção da Band não teve apenas sorte ao escolher o folhetim. Teve feeling. Mil e Uma Noites já foi exibida em mais de 50 países, conquistou o Leste Europeu e o Oriente Médio. E chegou à América Latina, uma das regiões mais noveleiras do mundo, no ano passado. A história é simples e dramática: uma talentosa arquiteta, viúva e mãe de um garoto de 5 anos, sofre ao descobrir que o filho tem leucemia. Após meses de procura, consegue uma doadora compatível, mas não tem o dinheiro para pagar o transplante. Ela tenta obter o valor com os avós paternos do menino, mas o sogro a despreza. A saída é pedir dinheiro emprestado na sua empresa. Quando o faz, ouve uma proposta surreal de seu patrão: ele lhe dará a altíssima quantia, se ela passar a noite com ele. O mais surpreendente é que a arquiteta, após titubear por um tempo, aceita o acordo.Sherazade salva a vida do filho e continua a trabalhar na empresa. O problema é que seu patrão se apaixona por ela e vice-versa. Por ter se vendido, ela reluta em aceitar o romance e assim começa o longo processo da conquista de seu coração. Tudo isso ocorre em uma semana, o resto, diriam os críticos, é enrolação. Na Turquia, a produção foi exibida em formato de série e durou quase três anos. Foi ao ar entre 2006 e 2009.“Começamos a acompanhar esse fenômeno no Oriente Médio. Quando chegou à América Latina, decidimos apostar aqui na Band. A produção chamou nossa atenção por resgatar a forma clássica de fazer novela: trama simples que fala de amor, ódio e desejo”, lembra Guebel. Ao mesmo tempo em que conta uma história de amor, Mil e Uma Noites toca em questões sociais como crianças com leucemia, alcoolismo, mulheres vítimas de violência doméstica, pessoas sem moradia e o conservadorismo da Turquia. Há também muita ação, com histórias de mafiosos.A luta entre o tradicional e o moderno não é tão evidenciada na trama. Ao menos, na edição brasileira. Ainda assim, chama a atenção o fato de uma mulher viúva e com filho querer trabalhar e ser discriminada por isso (Sherazade) e de um rico comerciante (Burhan, sogro da mocinha) sustentar até a imensa família de uma de suas noras. Entretanto, esses fatores não parecem incomodar o telespectador brasileiro.Faixa etária

Segundo dados da Band, o público da novela tem mais de 25 anos e engloba tanto homens como mulheres. A direção está feliz, mas não surpresa com a boa repercussão da trama. “A novela apresenta um alto nível de produção. Para nós, o mais importante é a qualidade. O país onde foi feita não importa. Sempre estamos pesquisando as tendências e, quando achamos uma consistente e compatível com o mercado brasileiro, vamos em frente”, diz Guebel. Acaba sendo uma mão na roda. A emissora gasta infinitamente menos comprando um folhetim de fora do que produzindo. Em tempos de crise, é uma boa pedida. (Da Agência Estado)