Publicado 30 de Junho de 2015 - 5h30

A conduta do coordenador de Prevenção às Drogas de Campinas, Nelson Hossri, gravada pelo Correio durante abordagem a um casal de moradores em situação de rua abriu polêmica e divide a opinião entre especialistas que trabalham diretamente com dependentes químicos. Hossri disse ao casal em situação de risco que o procurava na região do Viaduto Cury para pedir internação através do Programa Recomeço, do governo estadual, que o vício do crack é “incurável” e para que eles parassem com “o costume do assistencialismo”.

A secretária municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, Jane Valente, disse que conversará com o coordenador hoje para que ele explique a conduta. O próprio coordenador confirmou ontem que ficou exaltado durante a abordagem e disse que pediu desculpas ao casal pessoalmente.

A conversa ocorreu na última quinta-feira, primeiro dia da Semana de Prevenção às Drogas no município, quando a coordenadoria liderada por Hossri iniciava uma campanha de conscientização sobre os riscos da ingestão de etanol (álcool combustível). Desde o início do ano, dez moradores em condição de rua morreram e uma das hipóteses de causa é a ingestão de álcool combustível misturado a outras substâncias.

A conversa que o coordenador teve com Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30, ocorreu na manhã de quinta-feira. O casal procurou o ônibus da Guarda Municipal (GM) no Viaduto Cury — onde se concentravam as assistentes sociais do programa de prevenção às drogas e o coordenador Nelson Hossri — para pedir intervenção da coordenadoria para que fossem internados o mais rápido possível. O casal estava com os documentos em mãos e dizia que a internação no Instituto Padre Haroldo, que acolhe a população através do Programa Recomeço, estava “demorando muito”. Dizendo que não aguentavam ficar mais nenhum minuto nas ruas atrás do crack, imploravam para serem acolhidos. Desde então, a reportagem tenta localizar o casal pelas redondezas do viaduto e outros pontos do Centro, sem sucesso.

A secretária Jane Valente assistiu ao vídeo e pontuou que a maneira com que Hossri fala exigiria uma forma mais adequada. “É um assunto muito delicado. Ele usou conceitos-chave, mas a forma e o local reconheço que precisam ser revistos. Era preciso primeiro acolher esse casal e depois fazer o reconhecimento. A forma como foi feito estava inadequada.”

Conversa

Uma discussão começou quando Francislaine começou a reclamar sobre a demora no atendimento. Hossri saiu em defesa do programa e sugeriu então que o casal pagasse R$ 5 mil por um tratamento particular. “Vocês têm que parar com esse costume de assistencialismo. Você está sendo ajudada da forma que tem que ser. É assim, todo mundo passa por isso. Desde o dependente VIP, artista, qualquer um, até pessoa em situação de rua. Tem que ser igual”, falou ao casal o coordenador.

Em outro trecho da conversa, o rapaz diz que a dependência dele tem cura, mas o coordenador foi enfático ao dizer que é incurável. “Não, ela é uma doença incurável. Pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ela é uma doença espiritual, mental, progressiva e incurável, física, é uma doença crônica, amigo”, disse Hossri. A palavra incurável despertou a atenção da secretária Jane e também de outros especialistas da área.

Divergência

Para o psicólogo Rodrigo Lazzarini, especialista em dependência, o vício do crack é uma doença crônica, como a diabete. “Vai ser preciso fazer o controle talvez durante toda a vida, senão pode voltar a ter recaídas”, disse, considerando como uma doença crônica progressiva. Já o psicólogo Thiago Lusvardi, que também atua na área de dependência química, não enxerga como uma doença incurável e diz ter um olhar social sobre a política de álcool e droga. “Não vejo nem isso como uma doença, pois existem as incoerências que precisam ser analisadas caso a caso”, avalia. Cura, aliás, é palavra em desuso entre especialistas, que preferem falar em abstinência estável.

“A OMS fala em doença, os grupos de apoio falam em uma doença progressiva e hoje é complicado fazer uma concepção exata. Existem os que não vão atingir a abstinência total e, para outros, a droga vai sendo socializada”, disse o gestor técnico do programa Despertar para a Vida, do Instituto Padre Haroldo, Cesar Rosolen Jorge. “Há uma corrente de pessoas que pensam dessa forma (sobre ser incurável) e não podemos desconsiderar.”

Segundo o gestor técnico do programa, Francislaine será internada amanhã e Elissandro passará, no mesmo dia, por uma entrevista de avaliação de perfil. Após a entrevista, é agendada a sua internação. Ainda conforme o gestor, Francislaine já esteve internada no Padre Haroldo, mas teve uma nova recaída. A secretária Jane Valente confirmou as informações e informou que eles deram entrada no tratamento através do programa Recomeço no dia 11 de junho e que no dia 17 não compareceram no instituto. Foi novamente agendado para o dia 22, mas tornaram a não comparecer, disse a secretária. O casal confirmou que fez uso da droga na data e não compareceu.

Responsável reconhece que se exaltou com atendidos

O coordenador de prevenção às drogas Nelson Hossri informou ontem que o tratamento do casal já havia sido disponibilizado e que não era para eles estarem na rua na última quinta-feira, quando ocorreu a abordagem, caso tivessem comparecido na data marcada pelo Instituto Padre Haroldo para as avaliações necessárias. Entretanto, reconheceu que se exaltou com o casal durante a abordagem, mas justificou que Elissandro da Silva o teria agredido antes na cabeça com a pasta de documentos que carregava.

“O dependente abusa, são manipuladores, agendam e não comparecem. O tratamento deles já saiu e não era para estarem na rua”, disse Hossri. Segundo ele, o casal recusou atendimento da equipe de assistentes que estava no local e chegou com ameaças. “Você tem que se defender. O momento realmente foi de explosão porque eles vieram com explosão, e temos que estar firmes. Não estou dentro da minha sala.”

O coordenador disse que o casal fazia “show no momento em que estava para ser internado” e que “ele está cuspindo no prato que ele comeu”. “A secretária (de Cidadania, Jane Valente) me ligou, ela observou um lado, esse vídeo se divulgado vamos ter que tomar uma medida. Não podemos passar a mão na cabeça de um dependente químico”, disse.

Hossri também garantiu que as pessoas, inclusive moradores de rua que passaram pelo tratamento do Padre Haroldo, o apoiaram naquele momento. “Ele bateu com um atestado na minha cabeça, ele tumultuou, ele não era para estar lá”, frisou.

Porém, segundo o coordenador, a situação com o casal foi normalizada ontem mesmo, já que Elissandro e Francislaine teriam procurado por ele na sede da coordenadoria e pedido desculpas. “Ela foi até lá receber o Cartão Recomeço e também pedi desculpas. Disse que não tinha o porquê deles fazerem aquele barulho. Ele me abraçou, depois tomou um café e está tudo certo.” (GA/AAN)