Publicado 29 de Junho de 2015 - 5h30

Parte dos alicerces da Igreja do Rosário, construída em 1817, foram encontrados ontem por operários que trabalham nas obras de revitalização da Avenida Francisco Glicério. Tijolos e pedras da base da antiga igreja, que foi demolida em 1956 para o alargamento da Glicério e da Avenida Campos Salles, foram localizados durante a abertura de valeta para a troca da rede de água e esgoto que cruza a Campos Salles. Efetuada a troca, a valeta foi fechada e o trânsito, liberado. “Agora sabemos que há remanescentes da construção”, disse o arquiteto da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), Luiz Antônio Aquino, que acompanha as obras. A igreja, segundo ele, ocupava uma área que chegava até a segunda faixa da esquerda da Campos Salles e a terceira faixa da direita da Glicério. Ambas as avenidas foram alargadas como parte do Plano de Melhoramentos Urbanos de Prestes Maia.

Semana passada, enquanto as obras ocorriam na calçada da Praça Guilherme de Almeida, em frente ao Palácio da Justiça, foram localizados fragmentos de ossos. Uma análise será feita para confirmar se são de humanos. No local onde eles foram encontrados, próximos à Rua General Osório, existiu um cemitério no século 19, que ficava na lateral da Igreja do Rosário. O material encontrado foi fotografado, mapeado para o registro histórico e para que, no futuro, decida-se o que será feito. Até agora, os achados históricos de Campinas têm ficado apenas no registro, sem oportunidade para que a população os veja.

Em duas escavações anteriores, na praça atrás da Catedral e na Praça Antonio Pompeo, onde fica o monumento-túmulo de Carlos Gomes, foram encontrados os alicerces dos teatros Carlos Gomes e São Carlos e da Casa de Cadeia e Câmara. As estruturas remanescentes foram fotografadas e mapeadas, e as escavações voltaram a ser fechadas sem que os moradores da cidade tivessem a possibilidade de visitação, como num museu a céu aberto.

“O problema é que nossa história é recente e não há um envolvimento grande da população com a preservação da história. As pessoas gostam de saber da história, de ler a respeito, mas se envolvem pouco com a preservação. Não chega a ser surpresa encontrar vestígios da igreja, já que ela foi demolida há quase 60 anos, mas é importante preservar esses alicerces de uma forma que possam ser vistos. Há muitas técnicas em que você consegue manter o trânsito e a circulação de pedestres e, ao mesmo tempo, deixar a história à vista”, afirmou o historiador José Henrique Saraiva.

O pesquisador Valdir de Oliveira, que também acompanha as obras, tem interesse na preservação da história da Igreja do Rosário, que era frequentada pelos negros. Quando Campinas foi fundada, era numa igreja de pau a pique com cobertura de sapê, no local onde hoje está a Basílica do Carmo, que ocorriam as práticas religiosas restritas aos homens brancos, livres e proprietários de terra. Quando foi erguida, a Igreja do Rosário possibilitou que a população negra, composta por escravos e ex-escravos libertos, tivesse acesso aos sacramentos e à religião católica.

Pelo fato de não haver técnicas apuradas para construções de grandes edifícios, acrescido das ocorrências advindas de intempéries, os primeiros templos construídos na cidade foram arruinados em um curto espaço de tempo. A Igreja do Rosário, ao longo de sua existência, foi uma das que mais sofreram reformas e modificações. A primeira delas ocorreu no ano de 1851. Em 1887, suas torres tiveram de ser demolidas por medida de segurança, pois estavam em estado precário, colocando em risco a vida dos fiéis; somente em 1928 é que foi construída uma nova torre. A demolição, em 1956, fez parte da implantação do Plano de Melhoramentos Urbanos de Prestes Maia, que estabelecia o alargamento de diversas ruas e avenidas, entre elas a Campos Salles e a Francisco Glicério.