Publicado 05 de Junho de 2015 - 5h30

Enquanto o mundo avança na criação de condições ideais para o desenvolvimento das pessoas e sua inserção em uma sociedade mais justa e equilibrada, ainda se debate com a enorme contradição de contar com uma multidão de famélicos espalhados em praticamente todos os quadrantes. Levantamento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgado no mês passado, deu conta de que 795 milhões de pessoas continuam em situação de subalimentação. O mesmo relatório aponta uma diminuição de 25% do número de pessoas que sofrem com o problema em 25 anos, o que representa uma queda de 167 milhões na última década, com avanços importantes na Ásia e na América Latina - Brasil, Chile, Venezuela e Bolívia em destaque (Correio Popular, 31/5, A28).

Existe um alento de esperança nos ganhos obtidos. Ainda segundo a FAO, o número de pessoas que sofrem de fome passou de 23% em 1990 para pouco menos de 13% em 2015, cerca de 216 milhões de pessoas a menos, apesar de um aumento contínuo da população. O maior responsável têm sido os programas de agricultura sustentável e investimentos para gerar renda, emprego e desenvolvimento de infraestruturas, educação e acesso à água, principalmente. A doação de alimentos, além de não gerar um ciclo de promoção social, é forte concorrente à agricultura familiar local, gerando desemprego e desvalorização, em vez de soluções para o problema mais grave. O caminho é inverso, ou seja, a atenção ao desenvolvimento de programas de proteção social, que implicam em atender às necessidades mais imediatas e atenção ao desenvolvimento local.

Os resultados positivos de certa forma perdem relevância diante do número inaceitável de pessoas que não têm acesso a condições mínimas de subsistência, por conta de um ambiente inóspito, de acidentes climáticos, de uma condição política opressiva, de falta de programas sociais ou mesmo de pobreza crítica que impede qualquer ação. Os esforços humanitários não têm sido suficientes para mitigar o sofrimento de milhões, que não contam nem mesmo com o direito elementar de alimentar-se convenientemente. A maioria das vezes o resultado trágico nem é contabilizado em custos de saúde, mas em estatísticas mórbidas. Este é o objetivo que deve ser compartilhado pelas nações mais ricas, instadas a um esforço humanitário, nem que seja para diluir o incômodo de consciência de conviver com gerações inteiras condenadas a uma vida degradada e degradante.