Publicado 04 de Junho de 2015 - 5h30

O momento de extrema fragilidade política da presidente Dilma Rousseff tem desenhado um curioso quadro de disputa de poder, onde não faltam lances de oportunismo, traições, infidelidades e negociações de posições e favores. A perda de prestígio acarretou mais do que somente um abalo na imagem pública da presidente, deixou-a vulnerável ao assédio de lideranças políticas que não perderam tempo para cobrar os dividendos eleitorais.

O início do segundo mandato colocou em evidência o Poder Legislativo, composto por um aglomerado de interesses partidários que repartem o bolo do orçamento e do controle de cargos no governo federal e nas estatais. Curiosamente, ao tentar se desvencilhar do PMDB, o maior aliado de todos os governos, Dilma logrou criar inimizades que têm custado caro. Os primeiros movimentos no sentido de um ajuste fiscal e um novo ordenamento político têm passado pelo crivo e disposição dos presidentes da Câmara e Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que investem com apetite eleitoral sobre temas caros à opinião pública enquanto constroem obstáculos à provação inevitável das medidas de ajuste econômico.

Do lado do Partido dos Trabalhadores vem o fogo amigo, com a direção pregando um afastamento da tempestade que cerca o Planalto e a tentativa de erguer um discurso ambíguo, de exaltar as realizações enquanto governo, e de oposição na hora da crise e das medidas impopulares. À frente do barco desgovernado está Luiz Inácio Lula da Silva, dividido mais uma vez entre assumir sua responsabilidade ou continuar a negação de sua própria história, com mais erros que acertos.

Um quadro tão instável também apresenta variações interessantes. Eduardo Cunha (PMDB), sob a sombra ameaçadora da Lava Jato, busca revestir-se de um poder que lhe conferiria relativa imunidade, mas enfrentou derrotas inesperadas, ao tentar passar no afogadilho questões ligadas à tão esperada reforma política. Ao não conseguir aprovar itens vitais como a criação do distritão eleitoral e o sistema de financiamento de campanhas, fez revelar o quão tênue é o tecido do poder atualmente. Neste embate, fica uma oposição ainda indefinida sobre o discurso a ser adotado e pela contradição de criticar um plano de ação que provavelmente teria que ter assumido caso tivesse vencido a eleição.

O resultado é um governo esfacelado politicamente, um jogo de força ainda sem vencedores e assuntos urgentes deixados de lado em nome da briga de vaidades, a exigir o surgimento de lideranças que apontem o rumo para esta tão maltratada nação.