Publicado 03 de Junho de 2015 - 5h30

O Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizou no último dia 26 uma cirurgia inédita no Brasil. Uma jovem de 24 anos de Araçatuba foi implantada com três placas de titânio, impressas em 3D, no rosto e crânio. O material foi confeccionado no País especialmente para Jéssica Cussioli, e a operação demandou um trabalho prévio de três meses de toda equipe de médicos e pesquisadores do HC. Após uma semana do procedimento, que durou oito horas, a estudante de psicologia já conversa normalmente, sorri e faz brincadeiras. Foram mais de oito meses de luta para conseguir reconstruir completamente seu rosto, desfigurado em um grave acidente de moto.

Jéssica bateu com a face na quina de uma caçamba de entulho ao perder o controle do veículo, em 5 de setembro do ano passado. A pancada destruiu o capacete e atingiu o lado direito do rosto da jovem. A estudante perdeu a visão do olho direito com o traumatismo crânio-facial, que deixou ainda um afundamento de 12 centímetros do lado direito de sua cabeça e testa. O trauma causou também um acidente vascular cerebral e paralisou os movimentos do lado esquerdo de seu corpo. Ela ficou um mês no hospital. No entanto, contra a estatística dada de 2% de chances de sobreviver, Jéssica teve alta com quadro clínico bom. Aos poucos, a estudante foi recuperando suas funções motoras e reaprendeu a andar.

Mas a batalha estava apenas começando. Ela e a mãe, Evanir Cussioli, concentraram seus esforços para conseguir fazer uma cirurgia plástica que recuperasse suas feições. O afundamento também causava dores de cabeça, náuseas e mal-estar em Jéssica, que devem passar com a colocação da prótese.

Reconstrução

No mundo, sete países fazem reconstrução crânio-facial com placas de titânio. O procedimento, entretanto, é delicado e custoso. A importação das placas, como as que foram implantadas em Jéssica, custa em torno R$ 350 mil. No Brasil, são mais comuns próteses de metilmetacrilato, mas elas também são caras: cerca de R$ 130 mil. A luz no fim do túnel surgiu quando Evanir viu pela internet que a Unicamp começava a fazer as placas de titânio para serem usadas em cirurgias.

O desenvolvimento do material pela Biofabris, um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Unicamp, só foi possível graças a uma impressora 3D que confecciona peças de titânio, a única da América Latina. “Esta máquina chegou aqui há uns oito anos. Ela faz muitas peças para indústria e empresas de tecnologia. Há seis anos e meio foi feita a parceria com a Faculdade de Ciências Médicas e HC para a confecção dos biomateriais para cirurgia”, explicou o cirurgião plástico Paulo Kharmandayan. Importada da Alemanha, a máquina é avaliada em R$ 3 milhões.

O contato de Evanir foi direto com a Biofabris, por meio do engenheiro mecânico André Jardini. A mulher mandou um e-mail para o instituto com exames e tomografias de Jéssica. Foi Jardini quem entrou em contato com Kharmandayan e apresentou o caso. “Pela tomografia vi que ela tinha condições físicas de fazer parte desse projeto. Ela tinha a pele da região da cirurgia bem preservada, o que foi muito importante para a operação”, contou. Todo o procedimento foi feito via Sistema Único de Saúde (SUS) e não teve custo à família.

A fabricação das placas levou 20 horas. Juntas, elas formam uma superfície de cerca de 10 centímetros de comprimento. A prótese impressa a partir de tomografias encaixa-se perfeitamente no rosto de Jéssica, resultado de um trabalho conjunto dos médicos com os engenheiros da Biofabris. Cinco cirurgiões participaram da preparação e da operação: quatro plásticos (Kharmandayan, Davi Calderoni, Herbeti Aguiar e Adriano Mesquita) e um neurocirurgião (Enrico Ghizoni).

“Foi a primeira cirurgia crânio-facial que fizemos com o material. As outras eram apenas de crânio ou face”, contou Kharmandayan. Segundo o médico, o principal avanço da cirurgia se deve ao fato de ela ter sido possível com tecnologia, manufatura e conhecimento nacional. “Já seguimos um protocolo do SUS em relação às placas e nossa intenção é que esse tratamento passe a ser disseminado pelo Brasil.” A ideia é que a Unicamp dê treinamento a outros hospitais de ponta do País para que possam realizar o mesmo procedimento.