Publicado 02 de Junho de 2015 - 5h30

O Sistema Cantareira entra no período mais seco da estiagem ainda no vermelho, operando dentro da primeira cota do volume morto e devendo 105 bilhões de litros para pagar a conta do empréstimo que começou a ser feito há um ano, quando bombas passaram a retirar a água abaixo da cota do volume útil. As chuvas do Verão, especialmente em fevereiro e março, não conseguiram repor o empréstimo. A situação é pior que a registrada há um ano, quando o sistema já estava no volume morto.

Em 1 de junho de 2014, o Cantareira operava com 24,8% da capacidade — ontem, embora as chuvas tenham elevado em 0,2 ponto percentual o nível de água armazenado em relação a domingo, os reservatórios operaram em 19,8%. Somente quando chegar a 29,2%, a conta do uso do volume morto terá sido paga.

As perspectivas para os próximos meses, quando tradicionalmente o regime de chuvas entra em período de estiagem, não são boas. As novas regras operacionais definidas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee), e que começaram a vigir ontem, definiram o volume máximo de descarga dos reservatórios para a região de Campinas em 3,5m3/s até novembro. Para o Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), o volume autorizado será insuficiente para a região atravessar o pico da estiagem, que se dará entre os meses de julho e agosto e a região terá que se preparar para enfrentar problemas de abastecimento tanto pela queda na qualidade da água, por causa da baixa vazão dos rios, quando pela quantidade.

Entre domingo e ontem choveu 9,7 milímetros (mm) nos reservatórios. Embora maio tenha recebido um volume de chuva próximo da média, não foi suficiente para evitar um déficit hídrico. Ou seja, a quantidade de água que entrou no sistema, tanto por chuvas quanto por afluência de rios foi menor do que a quantidade consumida.

Se o Sistema Cantareira receber a média de chuva esperada, irá sair do volume morto em janeiro de 2016, voltando à cota zero. A previsão está no relatório de 27 de maio do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Se as chuvas ficarem 25% abaixo da média, em 1 de dezembro, o sistema terá recuperado apenas um terço do primeiro volume morto. Se ficarem 25% acima da média histórica, o primeiro volume morto será recuperado no final de novembro.

Se as chuvas ficarem 50% abaixo da média, previsão mais pessimista, o Cantareira voltaria a usar o segundo volume morto em dezembro. Mas se a precipitação superar a média em 50%, análise mais otimista, o sistema recuperaria o volume morto e sairia do negativo em outubro.

O volume útil do Sistema Cantareira (982 bilhões de litros) se esgotou no dia 11 de julho do ano passado e, a partir daí, começaram a ser retirados os 182 bilhões de litros de água da primeira reserva técnica. No dia 24 de outubro de 2014, um volume adicional de 105 bilhões da segunda cota tornou-se utilizável e começou a ser usado em 15 de novembro de 2014, quando a primeira se esgotou.

As chuvas de maio, que tiveram a maior quantidade para o mês desde 2005, quando choveu 142mm, não foram suficientes para melhorar a situação — no mês, os reservatórios registraram 74,4mm de chuva, abaixo da média esperada no período, de 78,3mm. Com isso, os reservatórios perderam mais água do que receberam, e o volume armazenado caiu. “As chuvas deste final de maio e início de junho não devem servir para tranquilizar porque entramos agora no mês em que tradicionalmente as chuvas param de cair”, disse o meteorologista Carlos Nobre de Albuquerque.

Vazão cai 74% no 1 dia das novas regras

No primeiro dia de vigência das novas regras de operação do Sistema Cantareira, que definiu pela redução de retiradas de água dos reservatórios, os mananciais das Bacias PCJ tiveram um corte drástico de descarga do sistema. Apenas 0,90 metros cúbicos por segundo (m3/s), ou seja, apenas 900 litros foram descarregados ontem nos rios Jaguari e Atibaia — foi como se 450 garrafas pet de dois litros estivessem sendo despejadas por segundo nesses mananciais. Essa quantidade de água representa 74,2% menos do que as Bacias PCJ têm direito (3,5m3/s) dentro das novas regras definidas pela ANA e Daee. Essa redução não afetou o abastecimento das cidades que dependem dos rios Jaguari e Atibaia porque as chuvas do final de semana na calha principal desses mananciais e de seus afluentes conseguiu garantir a vazão necessária. No Rio Atibaia, responsável pelo abastecimento de 95% de Campinas, a vazão subiu para 12,8m3/s na região onde a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) faz a captação.

A redução visa armazenar maiores volumes de água nos reservatórios e dar condições de enfrentar o período mais severo de estiagem, que tem início neste mês. As Bacias PCJ estão autorizadas a receber até 3,5m3/s até novembro e a Grande São Paulo poderá contar com 13,5m3/s. O valor para a Grande São Paulo inclui a descarga pelo túnel 5 do chamando Sistema Equivalente, e mais o volume que fica armazenado na Represa Paiva Castro. (MTC/AAN)