Publicado 03 de Junho de 2015 - 5h30

Joseph Blatter sabia que estava sendo investigado pelos Estados Unidos quando anunciou sua decisão de deixar a presidência da Fifa, ontem. O suíço decidiu convocar nova eleição apenas quatro dias depois de ter sido eleito para um quinto mandato. Sob forte pressão de cartolas, de políticos e patrocinadores, Blatter deixa o poder depois de 17 anos como presidente e 40 anos como funcionário da entidade máxima do futebol.

Mas foi acima de tudo o risco de uma prisão e um processo penal que mais pesaram na decisão. Se no fim de semana ele insistia que não renunciaria, tudo mudou quando ele foi informado de forma extraoficial que o Departamento de Justiça nos EUA estava tentando montar um caso contra ele.

A pressão aumentou quando foi revelado que a Justiça americana estava investigando Jérôme Valcke, seu braço direito. Documentos revelaram que Valcke sabia dos pagamentos de US$ 10 milhões para cartolas no Caribe e que estão sob investigação pelo FBI.

Valcke já havia anunciado que não viajaria ao Canadá, um forte aliado dos EUA, para a abertura da Copa do Mundo Feminina que ocorre no fim de semana. Ele era o principal operador do torneio que, nos últimos anos, ganhou uma nova dimensão na entidade. Mas fontes em Zurique confirmam que existiam temores de que, estando no Canadá, a polícia local pudesse atender a qualquer momento um eventual pedido de extradição por parte dos EUA. Para Blatter, ter seu braço direito envolvido significaria contágio imediato.

O Ministério Público da Suíça também indicou que havia aberto um novo processo penal por lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta contra um alto funcionário da Fifa. Mas garantiu que, por enquanto, não se trata de Blatter.

Mas, aconselhado por seus advogados e cobrado por patrocinadores, Blatter decidiu renunciar num escândalo de corrupção que fez sete presos em Zurique e se aproximou de seu gabinete. Para completar, um tribunal de Nova Iorque deve publicar hoje a íntegra de depoimentos no processo da Fifa, o que poderia trazer à luz nomes como o de Blatter.

Em menos de 48 horas, tudo mudaria para o suíço. Ele já não tinha o apoio de dezenas de grandes federações nem dos jogadores. Uma eleição será convocada entre dezembro deste ano e março de 2016, tempo suficiente para que Blatter possa "limpar" qualquer rastro de corrupção dentro da entidade.

Blatter também sofria uma segunda ameaça: a de ver a Fifa rachar, com a ideia de alguns governos europeus de realizar uma Copa do Mundo "alternativa", com seleções europeias e mais Brasil e Argentina. Michel Platini, presidente da Uefa, é contra o boicote. Mas pensava em pedir uma demissão em massa de todos os dirigentes europeus na Fifa. Ontem, ele elogiou a decisão de Blatter como "corajosa e certa". (Da Agência Estado)

Romário espera que Del Nero siga o exemplo

O senador Romário (PSB-RJ) cobrou ontem que o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, siga o exemplo de Joseph Blatter e também renuncie. "Fico bastante feliz em saber que o maior corrupto pediu demissão da entidade mais corrupta do futebol. Espero que essa atitude venha aqui para o Brasil e o presidente da CBF tenha a mesma atitude. Aí a gente vai poder começar a melhorar o futebol e ter melhor perspectiva", disse o ex-atacante em entrevista à Rádio Estadão.

Autor do requerimento que deverá culminar com a instauração da CPI do Futebol no Senado, Romário adiantou que Del Nero já está na lista de possíveis convocados para prestar esclarecimentos. "O Marco Polo está totalmente ligado às coisas negativas do nosso futebol. O Del Nero e muitos outros que usam o futebol para se enriquecer serão chamados para mostrar as suas provas, enquanto eu mostrarei as minhas." (AE)

Valcke sabia do desvio de US$ 10 milhões para cartola

O secretário-geral Jérôme Valcke sabia do pagamento de US$ 10 milhões para cartolas no Caribe em 2008. Ele recebeu uma carta sobre o assunto no dia 4 de março daquele ano, com um pedido para que o dinheiro do orçamento regular da Copa do Mundo fosse desviado para a Concacaf. Para a Fifa, a carta não prova nada. A carta foi enviada pela Associação Sul-Africana de Futebol, sugerindo que o dinheiro fosse colocado sob a administração de Jack Warner, dirigente de Trinidad e Tobago que era presidente da Concacaf e vice do Comitê de Finanças da Fifa. O documento ainda diz que Warner, um dos indiciados na investigação que os Estados Unidos estão fazendo sobre corrupção no futebol, seria o "fiduciário" do dinheiro. Outro dirigente investigado pela Justiça dos EUA, Nicolás Leoz, ex-presidente da Conmebol, está em prisão domiciliar desde segunda-feira. Os americanos querem a sua extradição. (AE)