Publicado 30 de Junho de 2015 - 5h00

Por Gustavo Abdel

Os moradores em situação de rua Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30

Gustavo Abdel

Os moradores em situação de rua Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30

A conduta do coordenador de Prevenção às Drogas de Campinas, Nelson Hossri, gravada pelo Correio durante abordagem a um casal de moradores em situação de rua abriu polêmica e divide a opinião entre especialistas que trabalham diretamente com dependentes químicos.

Hossri disse ao casal em situação de risco que o procurava na região do Viaduto Cury para pedir internação através do Programa Recomeço, do governo estadual, que o vício do crack é “incurável” e para que eles parassem com “o costume do assistencialismo”.

A secretária municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, Jane Valente, disse que conversará com o coordenador na terça-feira (30) para que ele explique a conduta. O próprio coordenador confirmou na segunda (29) que ficou exaltado durante a abordagem e disse que pediu desculpas ao casal pessoalmente.

A conversa ocorreu na última quinta-feira, primeiro dia da Semana de Prevenção às Drogas no município, quando a coordenadoria liderada por Hossri iniciava uma campanha de conscientização sobre os riscos da ingestão de etanol (álcool combustível).

Desde o início do ano, dez moradores em condição de rua morreram, e uma das hipóteses de causa é a ingestão de álcool combustível misturado a outras substâncias.

A conversa que o coordenador teve com Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30, ocorreu na manhã de quinta-feira.

O casal procurou o ônibus da Guarda Municipal (GM), no Viaduto Cury — onde se concentravam as assistentes sociais do programa de Prevenção às Drogas e o coordenador Nelson Hossri — para pedir intervenção da coordenadoria para que fossem internados o mais rápido possível.

 O casal estava com os documentos em mãos e dizia que a internação no Instituto Padre Haroldo, que acolhe a população através do Programa Recomeço, estava “demorando muito”.

Dizendo que não aguentavam ficar mais nenhum minuto nas ruas atrás do crack, imploravam para serem acolhidos.

Desde então, a reportagem tenta localizar o casal pelas redondezas do viaduto e outros pontos do Centro, sem sucesso.

A secretária Jane Valente assistiu ao vídeo e pontuou que a maneira com que Hossri fala exigiria uma forma mais adequada.

“É um assunto muito delicado. Ele usou conceitos-chave, mas a forma e o local reconheço que precisam ser revistos. Era preciso primeiro acolher esse casal e depois fazer o reconhecimento. A forma como foi feito estava inadequada.”

Conversa

Uma discussão começou quando Francislaine começou a reclamar sobre a demora no atendimento. Hossri saiu em defesa do programa e sugeriu então que o casal pagasse R$ 5 mil por um tratamento particular.

“Vocês têm que parar com esse costume de assistencialismo. Você está sendo ajudada da forma que tem que ser. É assim, todo mundo passa por isso. Desde o dependente VIP, artista, de qualquer um, até pessoa em situação de rua. Tem que ser igual”, falou ao casal o coordenador.

Em outro trecho da conversa, o rapaz diz que a dependência dele tem cura, mas o coordenador foi enfático ao dizer que é incurável.

“Não, ela é uma doença incurável. Pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ela é uma doença espiritual, mental, progressiva e incurável, física, é uma doença crônica, amigo”, disse Hossri.

A palavra incurável despertou a atenção da secretária Jane e também de outros especialistas da área.

Divergência

Para o psicólogo Rodrigo Lazzarini, especialista em dependência, o vício do crack é uma doença crônica, como a diabetes. “Vai ser preciso fazer o controle talvez durante toda a vida, senão pode voltar a ter recaídas”, disse, considerando como uma doença crônica progressiva.

Já o psicólogo Thiago Lusvardi, que também atua na área de dependência química, não enxerga como uma doença incurável, e diz ter um olhar social sobre a política de álcool e droga.

“Não vejo nem isso como uma doença, pois existem as incoerências que precisam ser analisadas caso a caso”, avalia. Cura, aliás, é palavra em desuso entre especialistas, que preferem falar em abstinência estável.

“A OMS fala em doença, os grupos de apoio falam em uma doença progressiva, e hoje é complicado fazer uma concepção exata. Existem os que não vão atingir a abstinência total, e para outros a droga vai sendo socializada”, disse o gestor técnico do programa Despertar para a Vida, do Instituto Padre Haroldo, Cesar Rosolen Jorge.

“Há uma corrente de pessoas que pensam dessa forma (sobre ser incurável), e não podemos desconsiderar.”

Segundo o gestor técnico do programa, Francislaine será internada na quarta-feira (1°), e Elissandro passará, no mesmo dia, por uma entrevista de avaliação de perfil. Após a entrevista é agendada a sua internação.

Ainda conforme o gestor, Francislaine já esteve internada no Padre Haroldo, mas teve uma nova recaída.

A secretária Jane Valente confirmou as informações e informou que eles deram entrada no tratamento através do programa Recomeço no dia 11 de junho, e que no dia 17 não compareceram no instituto. Foi novamente agendado para o dia 22 mas tornaram a não comparecer, disse a secretária. O casal confirmou que fez uso da droga na data e não compareceu.

Estado vê ação fora do ‘protocolo correto’

A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social informou por meio de nota que o a conduta do coordenador Nelson Hossri não segue o protocolo de atendimento inicial aos usuários de substancias psicoativas, conforme preconiza o Programa Recomeço.

Segundo a secretaria, o protocolo correto deve estar pautado “na entrevista, no acolhimento, no procedimento de triagem e no encaminhamento à rede de serviços referenciados no território”.

“Desta forma, entendemos que o ocorrido apresentado no vídeo não segue esse protocolo”, informou.

Por outro lado, segundo mesma nota encaminhada pela secretaria às 20h30, as informações e as orientações fornecidas pelo coordenador “estão de acordo com os procedimentos de atendimento para o encaminhamento de tratamento aos usuários de substâncias psicoativas e suas famílias”.

Seguindo uma linha de cuidados para serem acolhidos em comunidades terapêuticas, no caso Instituto Padre Aroldo, conveniado ao Programa Recomeço, a secretaria informou que faz-se necessária a prévia análise do equipamento de saúde e os procedimentos de exames clínicos prévios ao acolhimento no intuito de garantia de uma linha de cuidados qualificados, “o que não exclui o acesso dos usuários ao serviço”.

O Programa Recomeço, coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, realiza parcerias com os municípios que aderem a uma proposta de uma política municipal sobre drogas.

Campinas foi um dos primeiros a realizar adesão, criando assim a coordenadoria municipal sobre drogas. 

Responsável reconhece que se exaltou

O coordenador de prevenção às drogas Nelson Hossri informou na segunda que o tratamento do casal já havia sido disponibilizado, e que não era para eles estarem na rua naquele dia (quinta-feira) caso tivesse comparecido na data estipulada pelo Instituto Padre Haroldo para as avaliações necessárias.

Entretanto, reconheceu que se exaltou com o casal durante a abordagem, mas justificou que Elissandro o teria agredido antes na cabeça com a pasta de documentos que carregava.

“O dependente abusa, são manipuladores, agendam e não comparecem. O tratamento deles já saiu e não era para estarem na rua”, disse Hossri.

Segundo ele, o casal recusou atendimento da equipe de assistentes que estava no local, e que chegou com ameaças.

“Você tem que se defender. O momento realmente foi de explosão por que eles vieram com explosão, e temos que estar firmes. Não estou dentro da minha sala.”

O coordenador disse que o casal fazia “show no momento em que estava para ser internado” e que “ele está cuspindo no prato que ele comeu”.

“A secretaria me ligou, ela observou um lado, esse vídeo se divulgado vamos ter que tomar uma medida. Não podemos passar a mão na cabeça de um dependente químico”, disse.

Hossri também garantiu que as pessoas, inclusive moradores de rua que passaram pelo tratamento do Padre Haroldo, o apoiaram naquele momento. “Ele bateu com um atestado na minha cabeça, ele tumultuou, ele não era para estar lá”, frisou.

Porém, segundo o coordenador, a situação com o casal foi normalizada na segunda-feira mesmo, já que Elissandro e Francislaine teriam o procurado na sede da coordenadoria e pedido desculpas pelo ocorrido na quinta-feira passada.

“Ela foi até lá receber o Cartão Recomeço e também pedi desculpas. Disse que não tinha porque eles fazerem aquele barulho. Ele me abraçou, depois tomou um café e está tudo certo.” 

Trecho da conversa entre o coordenador Nelson Hossri e o casal:

Nelson Hossri - Você está falando que isso é dinheiro do governo para a bolsa do Jonas (Donizette, prefeito). Como você vai entrar em um tratamento que está sendo pago pelo poder público? Então junta R$ 5 mil por mês e paga o tratamento.

Francislaine - Pagar R$ 5 mil por mês, Nelson? O coordenador falando assim? Estou precisando da sua ajuda.

Hossri - A ajuda está aí. Você foi encaminhado para um serviço público gratuito.

Francislaine - Mas é um mês esperando.

Hossri - Um tratamento custa R$ 5 mil e você está com uma vaga gratuita e está reclamando. Você está indo para o terceiro melhor centro de tratamento do mundo, referência mundial. Vocês têm que parar com esse costume de assistencialismo. Você está sendo ajudada da forma que tem que ser. É assim, todo mundo passa por isso. Desde o dependente VIP, artista, de qualquer um, até pessoa em situação de rua. Tem que ser igual.

Elissandro - Não tem algo melhor, que possa ajudar o mais rápido possível?

Hossri - O que você quer? Uma particular (clínica) você precisa ter dinheiro e pagar. Então você está indo para uma pública.

Elissandro - Mas não tem uma que você me encaixe hoje mesmo?

Hossri - Não existe para ontem, amigo. Existe uma regra, exames...

Elissandro - E como o senhor iria sentir se fosse seu filho nos seus pés dizendo pai me ajuda?

Hossri - Eu iria interná-lo. Procurar um tratamento, uma equipe, seguir uma regra.

Elissandro - O senhor é filho de Deus Pai Todo Poderoso. Eu estou te pedindo ajuda. Você é o coordenador e tem o poder de ligar lá e dizer para me internar.

Hossri - Não posso, porque se você tiver uma doença você vai atrapalhar o tratamento dos outros.

Elissandro - Eu não tenho doença nenhuma (mostrou o documento).

Hossri - Ótimo, então agora você leva esse exame para o Padre Haroldo.

Elissandro - Eu quero sair da rua, peço pelo amor de Deus.

Hossri - Vamos parar com o sensacionalismo.

Elissandro - Mas minha dependência química ela tem cura.

Hossri - Não, ela é uma doença incurável. Pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ela é uma doença espiritual, mental, progressiva e incurável, física, é uma doença crônica, amigo.

Elissandro - Mas tem cura.

Hossri - Não, é incurável, tem tratamento. Tem controle. Tem o dependente na ativa e o dependente limpo. Você está com uma ajuda amigo, você deveria agradecer. Você tem um tratamento de graça.

Elissandro - Mas até quando? Até quando eu levar um tiro na cabeça?

Hossri - Sim, até o dia que você levar. A responsabilidade é sua, você entrou na droga e você precisa sair dela. Para sair você precisa parar com isso (documentos) e levar lá.

Escrito por:

Gustavo Abdel