Publicado 29 de Junho de 2015 - 5h00

Por Fábio Toledo

IG - FABIO TOLEDO

CEDOC

IG - FABIO TOLEDO

Conforme Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), divulgado no dia 23 de junho pelo Ministério da Justiça, o Brasil aumentou a sua população carcerária em 33% entre 2008 e 2014. Ocupamos o 4º lugar no mundo, com 607.731 pessoas em situação de privação de liberdade em junho de 2014. E, o que talvez seja mais alarmante, Estados Unidos, China e Rússia apresentaram redução no mesmo período, o que nos coloca na contramão do que vem ocorrendo entre os países com as maiores populações prisionais.

Esses dados revelam uma tendência que está se instalando entre nós de resolver os problemas de segurança quase que exclusivamente com a segregação de pessoas, pouco se fazendo para atacar a raiz do problema. Ou seja, como há indivíduos que perturbam a paz dos demais com os seus delitos, a solução superficial encontrada é simplesmente afastar tais indivíduos do convívio social, de modo que, ao menos enquanto estiverem presos, não voltarão a incomodar.

No lado oposto disso, também podemos observar a enorme proliferação de condomínios de casas e apartamentos cercados por muros, cerca elétrica, câmeras de segurança, portarias com um rigor quase militar no controle de acesso etc., tudo para vender uma sensação de estar seguro e que, naquele reduto, todos podem ficar tranquilos. Embora de modo bem diverso, impera aqui a mesma lógica segregacionista, que leva a se fechar e viver isolado como instrumento de defesa.

E isso não é mais privilégio das pessoas e famílias mais abastadas. Há um crescente número condomínios de casas que disputam um espaço diminuto entre si, de modo a permitir que os custos dessa parafernália de segurança possam caber no bolso de cada um. E como é quase apenas isso que os une, a paz tão almejada não tardará em ser perturbada por brigas enormes e constantes, muitas delas motivadas por ninharias, que marcam as pautas das intermináveis e enfadonhas reuniões de condomínio...

O problema está em que cada vez mais se vê no outro, no vizinho, por exemplo, alguém que devemos no máximo suportar. Já que não nos é possível comprar sozinhos todo um aparato de conforto e segurança, esse sujeito que mora ao lado é apenas alguém com quem divido as contas dessa comodidade.

Tratam-se, porém, de soluções que buscam mitigar os efeitos, mas não atacam a causa do problema. E a sua raiz mais profunda está no individualismo exacerbado que nos move a procurar no outro apenas a satisfação de interesses, no mais das vezes egoístas.

Nesse contexto está a desagregação da família. É que um relacionamento autenticamente conjugal pressupõe o sacrifício para fazer o outro feliz, construindo no amor e no compromisso a vida familiar. Se, porém, cada um busca no outro apenas uma fonte de satisfação sexual, afetiva etc., quando não mais se consegue sugar nela (ou nele) tais utilidades, simplesmente se parte para outros relacionamentos, deixando famílias esfaceladas e, não raras vezes, filhos desorientados e perdidos.

Solução? “A educação” – talvez muitos dirão. E penso que é isso mesmo. Não basta, porém, ensinar matemática, língua portuguesa ou história para curar essa doença social, até porque muitos individualistas que perambulam entre nós são eruditos e doutores nessas e noutras disciplinas acadêmicas. É necessário formar, a partir da família e também na escola, essa como um prolongamento daquela, pessoas peritas em humanidade, que conheçam a fundo o coração da mulher e do homem, suas carências, seus valores, seus anseios, enfim, que encontrem um sentido profundo para as suas vidas.

Esses “doutores”, pós-graduados no amor vivenciado por seus pais no seio de uma família, saberão encontrar e atacar as raízes da criminalidade, quase sempre relacionadas com carências, não apenas econômicas, mas, sobretudo, afetivas e espirituais. E também não precisarão “comprar” a um elevado custo uma sensação de segurança. Simplesmente saberão encontrá-la na verdade, por saberem de onde vieram e para onde irão pelos atribulados caminhos desta vida.

Escrito por:

Fábio Toledo