Publicado 04 de Junho de 2015 - 5h00

Por Zeza Amaral

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Sempre converso com a Morte, ali pelas cinco horas da tarde. Passados tantos anos, nos acostumamos a nossos defeitos - nenhuma virtude. A vida é sempre boa em anunciar defeitos e é bom seguir o conselho de corrigi-los sempre que possível. Alguns perecem por falta de condição e outros a gente tenta resolver nos dias que virão. Simples assim como um cinzeiro.

A Morte não tem humor e detesta piadas. A Morte é chata. Daí não encostá-la na parede para que confesse a sua inutilidade. Que fique a Morte lá e eu cá, como bons e inseparáveis amigos, água e óleo, em arquibancadas contrárias, bugrinos e ponte-pretanos, em saudável confronto, é claro, devo e digo.

Sempre gostei de jogar conversa fora com a Morte e sinto que ela também gosta desse tipo de prosa. Não há Deus e Diabo na conversa. Somos apenas Vida e Morte.

Meu avô achava uma desgraça alguém vender água e considerava isso como o início do Juízo Final. A Morte o levou numa madrugada, dormindo. Segundo ela, meu avô cumpriu o prazer do seu tempo e os novos que vinham mais lhe trariam dores do que prazeres.

Acho justo: por que devemos viver em um tempo de novidades que nos incomodam valores culturais de há muito considerados, de coisas desconhecidas e que nos apejam, beijos entre mulheres e homens, por exemplo, que, de resto, não são mais do que beijos entre atores, de um falso comprometimento com pessoas que gostam de ser o que são, elas, sim, corajosas em assumir suas vidas e suas emoções.

Atores não passam de mentirosos diante de seus ofícios, embora se achem o sal da vida, o suprassumo dos valores de uma sociedade hipócrita que se acha proprietária única da verdade. Ou seja: meu avô diria que isso é coisa de um tempo de covardia moral, de uma gente que não se enxerga e que apenas pretende encher o sapicuá de quem está tranquilo com a sua vida.

Deuses gregos tinham o hábito de enlouquecer os homens que queriam matar - coisa que aprendi no ginásio. Desconheço, é claro, a existência de deuses gregos, troianos, romanos ou petistas, mas, testemunhei a loucura de alguns homens que se perderam na aventura da fama e poder a qualquer preço. Famosos ou não, foram todos esquecidos em seus cemitérios. Foram bons, maus ou mais ou menos - existe o mais ou o menos na maldade ou na bondade? Sei lá. Existe sim a Morte e o legado de cada um. É o que sempre tenho visto por aí.

Fui coroinha do Liceu e em duas ocasiões fui oficiado a tirar o pó do Corpo de Jesus, uma estátua deitada em uma redoma de vidro, sempre a ser exposta no dia seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. É hoje, portanto. O menino que já fui limpava a estátua de Jesus Morto e pensava na vida que teria pela frente. Até hoje lembro daquela estátua Santa na escuridão de um quartinho do Liceu.

Por que negaram a ela a luz do sol de todas as manhãs? E eu apenas recordo que fiz o ofício de limpá-la e, mais que isso, de não deixar que uma única lágrima minha manchasse o sangue tinto de uma de suas cinco chagas, mais ainda daquela do seu peito, a quinta sacríssima e mortal.

O velho catador de papelão da Vila Industrial desapareceu já faz uns cinco anos. E a Morte é muito ética para comentar sobre o seu ofício e clientes - e bem me ensinou a minha mãe a respeitar a privacidade dos outros, coisa que sempre faço sem muito esforço.

Afinal, quem morreu deve ser esquecido da vida mundana e pouco importa se foi safado, santo ou um mísero cronista. E a quem interessa as particularidades do defunto, hein?

A Morte sempre me diz que não entende nada do que se diga a respeito da existência das coisas e que a sua obrigação é colocar um final na vida de qualquer coisa viva. E eu quero que todas as coisas vivam; e ela prefere que tudo morra. O curioso é que ambos temos razão.

Eu quero que a Morte morra; e ela quer que eu viva para que assim ela assim possa cumprir o seu ofício. E o moço Jesus Cristo morreu para nos salvar da Morte Eterna. E em que belo beco me meteram meus pais...

Ontem, às cinco da tarde, tomei mais um café com a Morte. Depois, fumamos um cigarro e cada um seguiu seu caminho. Um dia, é fato, nos encontraremos para o nosso último café e cigarro. E mais não digo e nem quero. Nem mesmo as flores que nunca plantei na vida. É isso.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral