Publicado 01 de Julho de 2015 - 5h00

Por Marita Siqueira

Integrantes do Z?África Brasil: grupo lança o primeiro disco de uma trilogia comemorativa

Christian Braga/Divulgação

Integrantes do Z?África Brasil: grupo lança o primeiro disco de uma trilogia comemorativa

Há 20 anos, o grupo Z’África Brasil milita na periferia de São Paulo usando como “bala” o hip hop e, como “arma”, cultura e educação. Atuante prioritariamente na Zona Sul (Campo Limpo, Taboão da Serra, Embu das Artes, Santo Eduardo, Santa Teresa, Maria Sampaio e Parque Ipê) e Zona Oeste (Rio Pequeno), os artistas promovem oficinas, cursos e workshops nas comunidades, desenvolvendo trabalhos que vão além do rap. Mas foi com música que eles presentearam os fãs, disponibilizando gratuitamente, na internet, o disco 'Ritual 1', lançado em maio.

'Ritual 1 – A Vida Segundo os Elementos do Hip-hop' é o primeiro disco de uma trilogia, produzida pelo MC Pitchô, e busca resgatar a essência do hip hop como estilo de vida, visão de mundo, produção de conhecimento e resistência cultural. Este é o quinto CD independente de estúdio dos MCs Gaspar, Funk Buia, Pitchô e o DJ Tano, composto por 13 faixas inéditas que têm em comum a letra contundente e os sons que misturam rap, maracatu, reggae e samba rock. Sobre esse e os outros dois discos de Ritual, que comemoram as duas décadas de atividade, do grupo, o MC e produtor Pitchô conversou com o Caderno C.

Caderno C — Qual a proposta da trilogia 'Ritual'?

MC Pitchô — Tivemos essa ideia depois de voltar da Europa, em 2008. Queríamos lançar um disco, mas não no padrão que todo mundo estava fazendo. A gente tinha muitas músicas aqui e, nesse processo, fizemos um disco solo do (Funk) Buia. E aí, eu e Gaspar ficamos trocando ideias porque a gente acha que o disco não pode sair por sair, tem que levar a algum lugar. Então veio a trilogia e a ideia disponibilizar tudo gratuitamente para a galera, já que estamos comemorando 20 anos.

Cada um dos discos tem um conceito?

No primeiro ('Ritual 1'), a gente quis resgatar a cultura hip hop, os grandes nomes, a origem, o que se perdeu nesses últimos anos. O Z’África sempre teve esse raciocínio de valorizar a história, aqueles que fizeram algo antes para que a gente pudesse estar aqui agora, os que lutaram por nós. A gente fala do quanto o rap é grande, o rap como elemento do hip hop, o canto falado, e o quanto é preciso ter cuidado com o que você diz. Você pode cantar o que quiser, mas tem de entender que, de certa maneira, a música tem que transformar o cara que ouve. O 'Ritual 2' é para resgatar a nossa riqueza cultural, a miscigenação, o que é o brasileiro. A gente coloca muito nas aulas que somos todos brasileiros, uma mistura única do planeta, e por isso é tão f... E o terceiro disco a gente fará uma mistura de tudo isso com participação de uma galera muito boa da música brasileira. Ainda não posso falar muito dele.

Você disse que, ao produzir um novo trabalho, pensam em levar aquilo a algum lugar. No caso da trilogia, onde vocês querem chegar?

O mais longe possível, culturalmente falando. Trocar energia com a galera. Estender o caminho que a gente já tem, no que acreditamos, naquilo que somos. O hip hop te torna um cara muito simples, capaz de ver a riqueza em pequenas coisas, te ensina a colocar os pés no chão. Na verdade, é tudo assim: a vida sobre os elementos do hip hop. Nossa luta nesses 20 anos é para resgatar o respeito máximo para todos. Quanto mais lugares formos e quanto mais pessoas ouvirem nosso raciocínio, vamos nos sentir muito felizes e realizados.

Há 20 que o Z’África faz um trabalho no hip hop que vai além do rap, são cursos, oficinas etc. na periferia. Vocês sentem o reflexo disso?

Isso é muito louco. Na verdade, o Z’África é cria disso. Começou com os projetos sociais e quando a gente fez a primeira viagem para a Itália, em 1999/2000, fomos representar um grupo que estava criando um movimento educacional diferente das escolas. Nessa época, tínhamos um trabalho forte na Casa Dez, no Ipiranga (bairro de São Paulo), com menores infratores. Isso foi muito legal e fez a gente abrir o leque, fez a gente ver que estava indo pelo caminho certo.

A música mais “forte” do 'Ritual 1', no meu ponto de vista, é 'Terrorista'. Nela, vocês denunciam mais uma vez o avanço da repressão policial. Esse ainda é um dos maiores problemas da periferia?

É, cara. É triste falar isso, mas é verdade. Hoje, se analisarmos bem, não está só na periferia. Quer dizer, acho que sempre teve. A gente gostaria de ver muitas mudanças, mas as coisas demoram no Brasil. A polícia já foi criada para proteger o rico, não para proteger eu, você que chega todo dia meia-noite em casa. Isso é um terrorismo com a gente, fora o que eles fazem no dia a dia, fora a corrupção, fora o que fazem no tráfico. Na periferia, por ser um lado obscuro da coisa, eles abusam, fazem o que eles querem. É isso. Muito difícil. Esses dias mesmo, eu estava em casa com minha família, veio um amigo me chamar e a polícia parou ele simplesmente porque estava na rua, na frente da minha casa e eu demorei para sair. O que é isso? É um ato terrorista. Isso é só um detalhe. Se você mora na comunidade, pode colocar a melhor roupa, arrumar o cabelo, que será sempre suspeito.

Vocês farão um ciclo da faixa ‘Terrorista’, gravando ‘Terrorista 2’ no ‘Ritual 2’ e ‘Terrorista 3’ no ‘Ritual 3’?

Isso aí. Esse primeiro é policial. O segundo será político. Acho que a gente vai até ser preso (risos). E o terceiro é segredo.

Tudo bem. Me fala um pouco das participações especiais no disco: o Fernandinho Beat Box, em ‘O Professor Está de Volta’ e ‘A Vida Segundo os Elementos do Hip-hop’, e a ‘Amanda NegraSim’, em ‘Rústico’.

O Fernando é nosso amigo, um dos fundadores do Z’África, e a Amanda é uma cria nossa das oficinas. Ela é aqui da quebrada e sempre colava nas oficinas. Era uma menina muito tímida, mas com muito potencial. Um dia ela começou a cantar e a gente ficou de cara. O Gaspar, que trabalha muito com o canto falado, os cordéis, pegou a Amandinha, começou a ajudar com umas letras que ela tinha e ela foi, está trabalhando aí. Muito legal.

O Z’África nasceu na periferia e por razões óbvias faz muitos shows nas comunidades. Vocês fazem questão disso ou ocorre naturalmente?

Na verdade a gente toca onde chamarem. Não tem restrição, não. A gente é hip hop, está onde o povo está. Não tem essa de segregar, todos os lugares são iguais, o que muda são as pessoas, e o mais importante é o som.

O que é ser hip hop?

É acordar e dormir hip hop, ou seja, ter ações dentro desse contexto. O hip hop é você saber da sua cultura, dos seus princípios, de onde você veio para que assim possa saber para onde você vai, qual sua missão aqui. A sua única riqueza é a sua fala. Eu, todos os dias quando acordo, penso em criar algo que pode mudar a vida de alguém. Não penso em grana, em status, penso em como vou ajudar o próximo. Para o Z’África, isso é o mais importante.

Escrito por:

Marita Siqueira