Publicado 04 de Junho de 2015 - 22h09

Por Marita Siqueira

Peranzzetta (à esq.) e Senise: ideia do disco 'Dois na Rede' nasceu em projeto de duos inusitados

Ana Luisa Marinho/Divulgação

Peranzzetta (à esq.) e Senise: ideia do disco 'Dois na Rede' nasceu em projeto de duos inusitados

Em 1990, com o álbum 'Uma Parte de Nós', nascia a prolífica parceria de Gilson Peranzzetta (piano) e Mauro Senise (saxofones, flautas). Foram 11 discos lançados, centenas de shows e ensaios que levaram ao entendimento musical e à amizade mútua capaz de solidificar os 25 anos de história. Para comemorar, escolheram o belo palco do Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, e o desafio inédito de gravar ao vivo.

O registro desse dia — 17 de outubro de 2014 — está no CD 'Dois na Rede', cujo repertório se divide em músicas autorais e clássicos da MPB. São cinco composições de Peranzzetta, inclusive a faixa-título, e sete releituras, entre elas Deixa, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, História de Lily Braun, de Edu Lobo e Chico Buarque, e Só Louco, de Dorival Caymmi. Peranzzetta e Senise conversaram por e-mail com o Caderno C sobre trabalho e a parceria.

Caderno C — Como começou a parceria Peranzzetta e Senise? De onde nasceu a ideia de reunir piano e sopro?

Mauro Senise — Um produtor me ligou convidando para participar de um projeto de duos inusitados, músicos que nunca tivessem tocado juntos antes. Me apresentou uma série de opções e eu escolhi o Gilson Peranzzetta, que já conhecia de gravações em estúdio, mas nunca havíamos tocado juntos. Desde o primeiro ensaio para o projeto, sentimos que tínhamos muitas afinidades musicais e pessoais, o que vem sendo confirmado ao longo destes 25 anos de parceria. A soma do piano com sax e flautas resulta numa harmonia perfeita, onde o piano faz o papel de uma pequena orquestra, sustentando a harmonia e o ritmo. E os sopros passeiam pela melodia me dando liberdade para interpretar, colocando minha assinatura, nos belos arranjos do Peranzzetta.

Qual o segredo para uma dupla de música instrumental durar tanto tempo no Brasil?

Gilson Peranzzetta — Amor à música, respeito mútuo, admiração, afinidade e perseverança.

Como veem o espaço para a música instrumental nas rádios e nos programas de TV no Brasil em comparação com outros países?

GP — Já houve momentos muito bons, no Brasil, nos anos 80 e 90. Atualmente existem alguns bravos produtores de programas de rádio que resistem e fazem excelentes programas, dedicados aos instrumentistas brasileiros. Aqui no Rio podemos citar as rádios MEC, Nacional, Catedral e Roquete Pinto. Sei que deve haver muitas outras rádios espalhadas pelo país que também têm a sensibilidade de levar nossa música não cantada a seus ouvintes. Mas infelizmente a maioria das emissoras de rádio desconhece a música instrumental. O 'Sem Censura' da Leda Nagle (TV Brasil) é um dos poucos programas na TV brasileira que abrem espaço para a música instrumental.

Quais as maiores influências no trabalho de cada um de vocês?

MS — Naturalmente cada um de nós tem a sua influência pessoal. Da minha parte, minhas maiores influências foram meus professores Paulo Moura (saxofone) e Odette Ernest Dias (flauta), o saxofonista americano Wayne Shorter e o trompetista Miles Davis. Mas o principal de tudo isso é que cada um de nós dois buscou ter assinatura própria, que é o mais importante para qualquer artista, seja músico, escritor, ator ou artista plástico.

GP — Petri Palau de Claramount e Federic Mompou, meus professores quando vivi em Barcelona, foram fundamentais na minha trajetória como pianista. Petri me ensinou as notas e Mompou me ensinou as cores. No Brasil sempre admirei e procurei me inspirar nos maravilhosos músicos Chiquinho do Acordeon, Radamés Gnatalli, Luiz Eça. No Exterior, Oscar Peterson, Bill Evans, Herbie Hancock. Dentre os arranjadores Henri Mancini, Michel Legrand, Gil Evans.

Por que optaram por 'Dois na Rede' para batizar o disco?

GP — 'Dois na Rede' é um frevo que compus há alguns anos e o título nos pareceu perfeito para a comemoração destes 25 anos de parceria.

Qual foi maior desafio em gravar ao vivo?

MS — Como nós não queríamos repetir nenhuma música durante o show para que o disco soasse realmente “ao vivo” e espontâneo, ensaiamos muito (aliás, como sempre fazemos semanalmente). E entramos no palco muito bem preparados porque num duo um tem que confiar plenamente no outro. E os improvisos, que ocorrem em todas as músicas, fluíram naturalmente. E estávamos muito inspirados e motivados. Afinal, é a comemoração de 25 anos de parceria, afinidade, amizade, admiração mútua a e amor pela música.

Neste tipo de gravação, a definição do local, no caso do Espaço Tom Jobim, é importante?

GP — Para uma gravação ao vivo o mais importante é a escolha do engenheiro de som, que precisa ser “fera” para conseguir o resultado que tivemos nesse CD. Nosso guru Sergio Lima Netto mais uma vez mostrou o seu talento. É claro que gravar ao vivo em um teatro lindo como o Espaço Tom Jobim nos inspirou, principalmente tendo a aura desse grande mestre a nos abençoar

Qual foi o critério para escolha do repertório?

MS — O critério foi livre, como tudo o que a gente faz. Eu sugeri algumas músicas, como Jura Secreta, da Sueli Costa, Bilhete pro Guinga, do Gilson, História de Lily Braun, do mestre Edu Lobo, e as outras foram sendo escolhidas naturalmente por nós dois. Gilson compôs Forrozim, choro pro Zé Américo, especialmente pra esta gravação, por exemplo. Uma favorita do Peranzzetta, Zanzibar, do Edu (Lobo), com este arranjo bacana que Gilson fez para o concerto que fizemos em Amsterdam com Edu Lobo e a Metropole Orchestra. Escolhemos também Aqui Ó, do Toninho Horta, de quem nós dois somos fãs. Fora os clássicos Só Louco, do Caymmi, Deixa, de Baden e Vinicius, Canção que Morre no Ar, do Carlos Lyra, com um arranjo do Peranzzetta escrito especialmente para flauta baixo. E ficou lindo! E ainda tinha mais um monte de outros temas maravilhosos que não couberam no CD. Mas que certamente estarão no disco que vai comemorar nossos 30 anos juntos.

Escrito por:

Marita Siqueira