Publicado 04 de Junho de 2015 - 5h00

Por João Nunes/Especial para o Correio Popular

Cena do filme 'Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível', com direção de Brad Bird

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Cena do filme 'Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível', com direção de Brad Bird

Viagens no tempo, universos paralelos e novas dimensões fascinam o homem desde sempre e já renderam bons livros e filmes. 'Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível' ('Tomorrowland', EUA, 2015), de Brad Bird, revisita esses temas a partir de uma história de Lindelof & Jeff Jensen e do próprio diretor, que foi transformada em roteiro por Bird e o escritor e cocriador da série 'Lost', Damon Lindelof.

Ocorre que não basta ter um tema fascinante para se transformar num bom filme. Aliás, nesta produção da Disney começam os problemas, pois há ideias demais jogadas num liquidificador, mas os ingredientes batidos não resultaram num bom suco, pelo contrário, ficou insosso e sem alma.

Para complicar, e a fim de melhorar o sabor, Brad Bird inventou uma série de estripulias para a história — muitas delas sem graça e fundamentadas em efeitos especiais sem brilho. Mas o problema está mesmo no roteiro meio confuso. Tentemos entender do que se trata por meio da sinopse oficial.

Casey Newton (Britt Robertson, bem no papel e a que salva o elenco) é uma adolescente com enorme curiosidade pela ciência e otimista ao extremo. Um dia, ela encontra uma pequena peça que permite que se transporte automaticamente para uma realidade paralela (a tal “terra do amanhã” do título), criada por Frank Walker, um ex-garoto prodígio que nos dias atuais (vivido por George Clooney) está desiludido.

Porém, há tantas idas e vindas no roteiro, incluindo flashback de quando Frank era um menino preocupado com invenções; e, depois, tantas reviravoltas e lutas com o poderoso David Nix (um Hugh Laurie inexpressivo) que revelam enorme ansiedade do diretor por colocar num filme todas as boas ideias que ele e seu co-roteirista tiveram.

E não só não cabem como estão em excesso. É um filme com excesso de tudo. No tempo de duração (2h10), no tom, que está um tanto acima (especialmente da protagonista) e nas ações (são tantas e ininterruptas que, em dado momento, cansam). Dá impressão que estas servem mais para encobrir a fragilidade do roteiro. Não encobrem, pelo contrário, evidenciam.

E vale um comentário sobre George Clooney. Ele é um profissional e deve ter ganhado bem para atuar. Contudo, surge tão pouco à vontade no personagem que, parece, estar interpretando por pura obrigação de contrato. E ele não caiu bem no papel — daí também a sensação de deslocamento.

Por fim, o tema mais relevante levantado pelo filme e comentado fora dele: a visão otimista do mundo (que aparece em Casey Newton), de um lado, e a pessimista, com Frank Walker. Este olha o futuro com enorme pesar, ciente da destruição que o homem vem ocasionando à Terra. Ela, ao contrário, enxerga a tal terra do amanhã cheia de saídas para os problemas ambientais, de saúde e de sobrevivência humana no planeta.

Para isto, bem ao estilo Disney, o roteiro se vale de uma “mensagem” ao final. Ora, mensagens são meios de líderes religiosos alcançarem seus fiéis. Cinema é arte (também pode ser entretenimento) e dispensa qualquer tipo de mensagem.

Tanto que a sequência final dos “sonhadores”, que irão “evangelizar” o mundo mais parece um vídeo publicitário de ONG ou de partido político em véspera de eleições. Perdoem-me os otimistas, mas o futuro mundo cor-de-rosa só cabe nas nossas utopias. Pode não ser a devastação de Mad Max - Estrada da Fúria (George Miller, em cartaz nos cinemas) citado pelo próprio diretor, mas não dá para engolir o comercial de margarina que é o final de Tomorrowland.

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João Nunes/Especial para o Correio Popular