Publicado 04 de Junho de 2015 - 4h00

Por Joaquim Motta

Seguindo os hábitos arraigados da cultura romântica ocidental, na maioria das vezes que vamos à comemoração de um casamento, temos o propósito de cumprimentar os noivos pelo que se entende como um ‘final feliz’ do namoro que iniciaram há alguns anos.

O ‘happy end’ se enraizou profunda e essencialmente nos nossos costumes, de modo que automaticamente associamos uma festa matrimonial com o resultado de um filme romântico em que o par, depois da muitas peripécias e dificuldades, chega ao altar.

Uma telenovela não foge dessa rotina, bem como muitos livros, revistas, óperas. Pelo que conheço de peças artísticas, várias letras de melodias populares e telas de pintores acadêmicos e abstratos não acompanham esse destino.

A artista plástica Vera Costa Pellegrini alerta, porém, que a pintura e a escultura ‘congelam o momento’, abrindo a imaginação do observador para que ele siga e defina o seu próprio enredo, com o desfecho que bem entender. 

E, como exemplos, serve-se de vários trabalhos que famosos artistas criaram a partir do encontro dos lábios: ‘In Bed: The Kiss’, quadro de Lautrec, ‘O Beijo’, escultura de Rodin,  ‘O Beijo’, pintura de Klimt, ‘O Beijo’, foto de Man Ray.

Essas obras deixam o expectador à vontade para idealizar aquele momento. Será que o final daquele casal será feliz? Apenas um encontro casual? Um beijo de despedida?

A trama dos romances tradicionais (literários, cinematográficos e televisivos) é plena de clichês que suscitam atitudes heroicas e extraordinárias dos pares. Esses se empenham em mostrar que seu amor sustenta a coragem física e o brio de caráter diante de qualquer empecilho, ameaça ou manobra suspeita. E o chavão decisivo repete o famigerado ‘final feliz’, equivalente ao maior mérito, o grande prêmio que o casal faz jus.

No cinema, ultimamente, os roteiros das chamadas comédias românticas têm mudado um pouco, surgindo casais de estilos distintos, quase sempre amigos controversos a um passo da inimizade. E isso prossegue até o momento último. Quando estão para se declarar inimigos figadais, retoma-se a rotina: o amor os aproxima apaixonadamente, caracterizando mais um ‘happy end’...

Alguns movimentos de rever essa situação têm surgido nas artes em geral, contestando esse apelo romântico convencional. Há filmes, peças de teatro alternativas que terminam em grandes frustrações. Mas o grande público ainda privilegia as sequências ilusórias.

Nas ocasiões festivas que marcam o início dos casamentos, sem estragar a festa ou atrapalhar os sonhos dos protagonistas, poderíamos tentar algo, mudar alguma coisa.

Penso que todos os participantes, dos noivos ao celebrante, passando por familiares, padrinhos, amigos, parentes e convidados, deveriam ir muito além de simplesmente ter chegado às bodas e viver a festa, brindando à tradição do ‘final feliz’.

Todos precisariam se concentrar em dois pontos básicos e definitivos para aquele par: o começo festivo e a sequência viabilizada até o final distante.

Nada contra a festa em si, nem contra a conquista do casal. Conheceram-se, namoraram, noivaram ou não, e casaram-se. Tudo ótimo, que se divirtam. Mas essa reunião comemorativa não é realmente a felicidade última.

Há muitos obstáculos adiante, muita gratificação para se curtir e vários enfrentamentos a demandar.

Para a mulher, mesmo que muitas sejam contra isso, o casamento equivale a um ‘diploma’, uma formatura de mulher... E um vínculo definitivo, imaginado até como eterno.

Para o homem que se inspira nos exemplos da boa conduta conjugal da época contemporânea, a tarefa será vigorosamente exigente.

Duas pessoas que se propõem a estar juntos pela vida, irão enfrentar, ao longo da convivência, muitas divergências, episódios de crises e riscos.

Aliás, os celebrantes de diferentes credos costumam indicar que os pares devem curtir as boas oportunidades e prometer dedicação, tolerância e esforços nos momentos ruins e doenças.

Mas essa perspectiva precisa ser melhor conhecida e cada par mais responsabilizado por ela. Não se trata de criar obrigações ou deveres, exigindo e constrangendo moralmente os noivos. É uma compreensão ética e amorosa do envolvimento dos dois. Uma verdadeira chance de viverem bem toda a sequência conjugal chegando ao final distante como um casal feliz e, se quiserem filhos, de curtir uma boa família.

Escrito por:

Joaquim Motta