Publicado 03 de Junho de 2015 - 5h00

André Fernandes

Cedoc/RAC

André Fernandes

Abro o jornal enquanto estava a aparar as madeixas laterais e deparo-me com uma longa reportagem sobre a Coreia do Norte, uma espécie de museu social das obsolescências políticas do século 20. Enquanto meu barbeiro fazia piada sobre a proibição do uso do biquíni e do nome do mesmo líder supremo da nação, minhas risadas externas alimentavam minhas risadas internas acerca do ridículo fim para o qual os humanismos utópicos conduziram-nos ao longo do século passado, o mais curto deles, na bela sacada de Hobsbawn.

Se existe algo patente no início deste século é a dissecação dos resultados desses humanismos que, há pelo menos duzentos anos, prometiam a definitiva consagração do homem como o centro e o cume do mundo e da vida. A mais grave carência dessas ideologias humanas, demasiadamente humanas, era precisamente o fato de que, no seio de cada uma delas, não se confiava na atuação de mulheres e de homens reais e concretos para se levar adiante a grande mudança revolucionária que deveria trazer consigo a paz e a abundância material para todos os povos.

Todo o processo de mudança fiava-se em forças mecânicas e anônimas, como o progresso científico, a luta de classes e a tal mão invisível do mercado, as quais tinham, em comum, uma escassa consideração por cada uma das pessoas humanas, vistas, em regra, como uma variável matemática da equação social. Recordo-me de Stalin quando disse que a morte de milhões era uma estatística. Hoje, chegado o momento de despertar do “sonho humanista”, estamos mais desamparados ainda, porque muitos desses humanismos, fundados numa postura de constante suspeita, corroeram nossa confiança nas possibilidades de aperfeiçoamento interior do ser humano.

Em certo sentido, os humanismos utópicos esfumaçaram-se, pois seus projetos cumpriram-se: não porque realizaram suas propostas de uma Sion terreste, mas por terem esvaziado o ser humano de sua essência, reduzindo-o à matéria e ao entrecruzar-se de forças puramente cegas e fáticas. Curioso notar que o desmascaramento de toda a “velharia bolorenta” da tradição filosófica seria a condição necessária para o advento da emancipação definitiva da humanidade.

Tanto Schelling, como Kierkegaard ou Dostoievski e mesmo Nietzsche, cada qual a seu modo, descobriram que o resultado concreto dessa transmutação humanista, provocada pela maneira própria de se pensar na modernidade, foi o niilismo. O marxismo duro, o liberalismo economicista e o dar-winismo social converteram-nos em homens ocos com a cabeça recheada de palha, no dizer de Eliot.

É hora de encaminhar esse novo milênio, ameaçado pelo esgotamento do modernismo e pela confusão do pós-modernismo, rumo ao resgate daquela essência perdida, dando-nos conta de que o parâmetro decisivo da vida social não oscila mais no eixo estado/mercado. Mas no eixo humano/não humano, isto é, na busca de um aclaramento intelectual daquilo que é bom e melhor para o homem, como contraposto àquilo que o desumaniza, esvazia seu ser e o retifica como mais uma coisa entre tantas outras. O ser humano está nauseantemente cheio de se sentir vazio.

Se Skinner queria situar o ser humano para além da dignidade e da liberdade, podemos dizer, com Spaemann, que, para o verdadeiro humanista, é suficiente não precisar ir além do bem ou do mal. Onde podemos encontrar, nesses tempos nebulosos, a luz que nos devolva a nós mesmos? Onde podemos descobrir um aguilhão espiritual que nos desperte do conformismo existencial e da anorexia reflexiva de uma época em que o consumismo massivo nos cega para a percepção daquilo que constitui o florescimento do homem enquanto tal?

Eis um bom começo de resposta: os clássicos. Mais do que simplesmente a eles retornar, numa espécie de resgate nostálgico de um passado perdido, devemos avançar em sua direção. Tentar, a partir de nossa própria condição, pensar seus ensinamentos com o rigor, a magnanimidade e a beleza com que foram refletidos um dia. Sem uma postura neorromântica, porém com a sede de se voltar a injetar um fluxo de vida que nunca se esgotou totalmente e do qual brotaram os melhores frutos de uma civilização que, hoje, esqueceu-se da seiva que sempre a nutriu.

O avanço aos clássicos em sentido estrito – a cultura greco-latina – será um empenho, para uns, de regeneração; para outros, de descobrimento; e, para todos, de deslumbramento da dimensão mais original e originária para mulheres e homens de todas as épocas. Até mesmo para o ditador do cabelo escovinha que não gosta de biquíni e que cultua sua personalidade ao vetar a homonímia em sua nação. Afinal, como afirmava Strauss, o clássico caracteriza-se por sua incrível perenidade, nobre simplicidade e serena grandeza. Com respeito à divergência, é o que penso.