Publicado 04 de Junho de 2015 - 5h00

Por Sarah Brito

O vereador Cid Ferreira em discussão com manifestantes durante audiência: "Disseram que iam me pegar"

Camila Moreira/ AAN

O vereador Cid Ferreira em discussão com manifestantes durante audiência: "Disseram que iam me pegar"

Grupos ligados ao movimento negro de Campinas preparam uma representação no Ministério Público (MP) para investigar prática de crime de racismo, preconceito e abuso de poder do vereador Cid Ferreira (SD), após suas falas na audiência pública realizada no Legislativo na última segunda-feira.

O parlamentar, durante uma discussão com um jovem negro, teria afirmado que o rapaz era feio e ele era bonito, e que ele tinha olhos azuis, e o rapaz não.

“Também fez gestos com o nariz mostrando o quanto era fino e eu respondi que não vim debater beleza e sim a emenda da opressão”, afirmou Fernando Moraes, do coletivo Raízes da Liberdade, que foi quem acabou discutindo com o parlamentar.

Além da representação dos movimentos, o vereador Paulo Bufalo (PSOL) disse na quarta-feira (3) que protocolou na Câmara pedido para ter acesso a imagens e áudio da audiência para verificar o conteúdo da discussão.

“Não estava sendo armazenado o material, então vamos ver o que tem. E me coloco a disposição para ajudar. Precisamos ter respeito com o conjunto de líderes e ativistas que venham na Câmara”, disse.

Os grupos também pretendem protocolar o documento na Corregedoria da Câmara de Campinas, para apurar o caso.

A discussão ocorreu na audiência de debate da proposta de emenda à Lei Orgânica que trava qualquer discussão sobre a ideologia de gênero dentro do Plano Municipal de Educação.

O vereador Cid Ferreira negou que a ofensa seria ao manifestante, mas sim a todos que estavam no plenário e eram contrários à aprovação da emenda. No entanto, manifestantes e vereadores que estavam próximos ao parlamentar confirmaram que a ofensa foi ao manifestante.

A Associação de Religiosos de Matriz Africana (Armac), o Coletivo Saravaxé e o grupo Força da Raça se posicionaram em redes sociais, informando que o documento será feito com base na diretriz do movimento, de combater a intolerância religiosa, “que anda de mãos dadas com o racismo”.

Em nota, os coletivos informaram que o papel do grupo é “lutar por respeito, paz e justiça social”. A fala do vereador causou polêmica no Legislativo. Na sessão anterior, ele dividiu a plateia em “Deus” e “diabo” e “céu e inferno”. “Deus está aqui e o diabo está lá”, disse.

No Brasil, são crimes atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, com pena de reclusão. A lei 7.716 foi criada em 1989, e o crime é inafiançável.

O presidente da Armac, João Galerani, afirmou que o movimento não entende como um vereador se dirigiu a um eleitor com desprezo.

“Não podemos mais admitir que essas atitudes racistas continuem a acontecer. O silêncio faz com que o racismo não acabe, então sempre que qualquer ato de racismo, intolerância ou homofobia acontecer, iremos correr atrás das providências”, disse.

O vereador Carlos Roberto de Oliveira, o Carlão do PT, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, estava próximo à discussão e afirmou que se sente envergonhado pela fala de Ferreira.

“Considero um crime de racismo, que precisa ser apurado. Procurei a vítima e ele está disposto a testemunhar. Também vamos procurar outras pessoas que ouviram a fala”, disse ele.

Defesa

O vereador Cid Ferreira (SD) disse ontem ao Correio que foi ofendido pela população e admitiu que disse que “era bonito e tinha olhos azuis”.

Ele afirmou, no entanto, que falou a frase para todos os participantes, e não para um só. “Me xingaram de velho, de ‘gagá’, faziam sinais obscenos com os dedos. Disseram que iam me pegar. A única saída que tive foi falar que eles eram feios. Mas tinha um monte de branco, mais branco que preto”, afirmou.

O parlamentar se disse indignado com a situação e que não discriminou negros durante a sessão.

“Meus grandes amigos são negros, respeito tanto como qualquer cidadão. Não temo a representação (no MP), eles terão que provar. Eu que tenho que montar um processo”, disse.

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Sarah Brito