Publicado 07 de Maio de 2015 - 14h13

Por Delminda Aparecida Medeiros

Pé na Estrada – São Paulo

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Reconhecido como criador da fotografia, o francês Hercule Florence, que escolheu Campinas para viver, era, além de cientista, desenhista e pintor. Esses outros talentos, pouco conhecidos, podem ser vistos na exposição O Olhar de Hercule Florence Sobre os Índios Brasileiros, em cartaz na sala multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade São Paulo (USP). A mostra reconstrói a trajetória de diversos grupos indígenas brasileiros registrados durante a Expedição Langsdorff, que percorreu o interior do Brasil de 1825 a 1829. Nascido em Nice e criado em Mônaco, aos 20 anos Florence chegou ao Rio de Janeiro em 1824 e foi contratado como desenhista da famosa expedição.

A missão científica realizou um enorme levantamento de dados geográficos e etnográficos do país. Ao registrar em desenhos e aquarelas as paisagens, pessoas e cenas cotidianas dos locais por onde passava, além de expressar considerações pelo que via, Hercule Florence criou um valioso material iconográfico, especialmente sobre as populações indígenas que habitavam o território brasileiro naquela época, desde São Paulo, passando pelo Mato Grosso, até o Amazonas.

“É a partir dessa iconografia que se organiza a exposição O Olhar de Hercule Florence sobre os Índios Brasileiros, composta por uma seleção de desenhos e trechos do diário em que ele narra suas experiências de viagem”, explica o presidente do Instituto Hercule Florence (IHF), Antonio Florence, tetraneto do artista. A mostra inclui ainda fotografias e obras de outros viajantes, peças etnográficas dos grupos indígenas retratados e informações sobre a sua situação atual. “A proposta da exposição foi fazer uma ponte entre o que ele retratou há 190 anos e como vivem hoje esses povos indígenas, criar um paralelo entre a história e a atualidade”, diz Florence, ressaltando que a exposição traz um material inédito dos diários originais de seu tetravô, que integram o acervo do IHF.

A mostra apresenta um panorama histórico e social dos povos Apiaká, Munduruku, Bororo, Guaikuru (atualmente Kadiwéu), Kayapó (hoje Panará), Coroado (hoje Kaingang), Xavante paulista, Guaná e Guató, reunindo peças, entre desenhos, pinturas, objetos, fotografias, vídeos, livros e mídias digitais, que documentam as dinâmicas destes grupos. “Esse resgate histórico dos anos que separam os registros oitocentistas de Hercule Florence e a situação atual busca contribuir para uma perspectiva futura sobre a situação indígena no Brasil”, afirma Florence. “O que se percebe pela comparação dos registros é que Hercule Florence não retratou os índios como alegorias, não fantasiou. Adornos e pinturas que ele registrou são usados até hoje por muitas etnias. Para mostrar isso, a exposição traz, além dos desenhos históricos, fotografias e objetos atuais similares aos retratados por ele”, explica Francis Melvin Lee, responsável pelo acervo artístico e coordenação administrativa do IHF e uma das curadoras da mostra, junto com Glória Kok.

“No ano que vem, nossa meta é tornar essa exposição itinerante e levá-la também a Campinas, terra de Hercule Florence”, adianta Antonio Florence. Além dos registros, diários, desenhos, livros, fotografias e objetos indígenas, a mostra é composta por painéis com informações gerais sobre cada nação indígena, pelo olhar de Hercule Florence e com dados da situação atual.

Agende-se

O quê: Exposição O Olhar de Hercule Florence Sobre os Índios Brasileiros

Quando: Até 30/6, de segunda à sexta das 8h30 às 18h30

Onde: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP (Rua da Biblioteca, s/nº, Cidade Universitária, São Paulo, fone: 11 2648-0310)

Quanto: Entrada franca

Saiba mais

O projeto é do Instituto Hercule Florence (IHF), realizado com subsídio do Programa de Ação Cultural (ProAC) do governo do Estado. A iniciativa conta com as parcerias da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, Museu de Arqueologia e Etnologia, Instituto Socioambiental, Laboratório de Estudos de Etnicidade, Racismo e Discriminação e Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. Imagens também foram cedidas pelo Museu do Índio/Funai, Instituto Moreira Salles, Museu Nacional, Biblioteca Nacional, Biblioteca Nacional da França, Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP, além da contribuição de fotógrafos e pesquisadores que atuam em defesa das causas indígenas.

Algumas etnias indígenas por Hercule Florence e sua situação atual

Os Apiaká: “Os homens tatuam o rosto, tatuagem que é sempre a mesma em todos, enquanto a das mulheres é mais simples e uniforme. Além da do rosto, que parece uma distinção tribal, capricham os homens em desenhos do tipo, espalhados pelo peito e pelo ventre, em que predominam quadrados e ângulos retos, paralelos entre si”, registra Hercule Florence em seus diários. Os Apiaká distribuíam-se pelas margens dos Rios Arinos e Juruena (MT). Em dois séculos de contato, perderam a língua, o modo de vida tradicional e miscigenaram-se. Considerados extintos em 1957, sua população hoje é estimada em 500 a 1000 pessoas, a maior parte vivendo na Terra Indígena Apiaká-Kayabi, na margem direita do rio dos Peixes (MT). O grupo se valeu dos registros de Hercule Florence para resgatar sua história e reconstruir sua memória em uma cartilha.

Os Bororo: “Ao fim do almoço de 4 de setembro de 1827, surge-nos numa das avenidas do grande pátio um bando de índios rubros de urucu, que avançam em fila, tirando o primeiro deles os mais estranhos e indescritíveis sons de instrumentos semelhantes a chifre de boi, se não é o próprio. Ao todo, onze homens, três mulheres e duas crianças, indivíduos que, à exceção de um único, se apresentam inteiramente nus”, escreveu Florence. Os Bororo ocupavam o território do Rio Juruena até o Rio São Lourenço e da Bolívia Oriental até o Rio Araguaia. Depois de sucessivas guerras, crises de fome e epidemias, sofreram drástica queda de população. Desde a década de 1970, porém, verificou-se a tendência ao crescimento populacional. Atualmente somam 1.686 pessoas, distribuídas em seis Terras Indígenas demarcadas, em território descontínuo e descaracterizado, no Mato Grosso. Mesmo sofrendo efeitos predatórios do contato com os brancos, pressões de integração à sociedade nacional e tendo seu território reduzido e ameaçado, preservam sua cultura, rituais e autonomia política.

Os Munduruku: “Andam nus, à semelhança dos apiacás. Raspam os cabelos, conservando em cima da testa, contudo, uma espécie de crista de pelos, curta e redonda. Atrás da cabeça, deixam-nos crescer. Enegrecem o rosto, de diversas maneiras, com o jenipapo, cujo suco fornece cor parecida com a tinta de escrever. Tatuam a fisionomia, os ombros o pescoço e o peito. Isso dá ideia de ser, nessa tribo, distinção. Fixam-se os mundurucus às margens do Tapajós e aí cultivam mandioca, adquirida habitualmente por negociantes do Pará.” Os Munduruku dominavam bélica e culturalmente o Vale do Tapajós. Os guerreiros realizavam expedições para obter cabeças de inimigos, que eram pintadas e enfeitadas de penas e toucado. Sua população atual é de 11.630 pessoas distribuídas no Amazonas, Mato Grosso e Pará. A maioria vive na Terra Indígena Munduruku, distribuída em cerca de 80 aldeias, situadas na margem direita do Rio Tapajós (MT). São representados por duas organizações criadas em 1992 com o objetivo de organizar suas reivindicações e fortalecer seu povo.

Obs: Os trechos reproduzidos são do manuscrito inédito LAmi des Arts livré à lui-même (1837-1859), de Hercule Florence.

Saiba mais sobre Hercule Florence

Nascido em Nice, em 1804 e criado em Mônaco, Hercule Florence chegou ao Brasil em 1824. No mesmo ano embarcou na Expedição Langsdorff (1825-1829), ao fim da qual se radicou na vila de São Carlos (hoje Campinas), onde viveu até sua morte em 1879. Além de ter produzido grande obra iconográfica sobre o interior paulista e brasileiro, é reconhecido internacionalmente como um dos inventores da fotografia, em 1833, antes de Louis Daguerre na França e William Talbot na Inglaterra. Na antiga vila de São Carlos implantou a primeira tipografia da cidade e fundou, com a esposa, um colégio feminino, onde dava aulas de pintura.

Dica da repórter

Outra exposição que merece ser vista na USP é Traço/Compassos – Mário de Andrade em Caricaturas, em cartaz até 10 de julho no saguão da Reitoria E, próximo à Escola de Comunicação e Arte (ECA). A mostra reúne cerca de 30 caricaturas do expoente do modernismo feitas por artistas como Nássara, Millôr Fernandes, José Corrêa Vieira, Nicolielo, Hippert, Baptistão, entre outros. De segunda a sexta, das 8h às 17h.

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros