Publicado 05 de Maio de 2015 - 15h04

Por Rogério Verzignasse

çÍíFotos César fez fotos do secretário, do comerciante, dos boxes comerciais ainda vazios, do velho salão onde as passagens ainda são vendidas. Tem imagens gerais do novo terminal

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Urbanismo ||| Transporte

Capivari: nova estação encerra

polêmica que atravessou década

Rodoviária toma o terreno onde existiam boxes comerciais mantidos por famílias tradicionais

Alheio à discussão,

usuário aprova as

novas dependências

Rogério Verzignasse

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A inauguração da nova Estação Rodoviária de Capivari, na região central da cidade, coloca ponto final em uma novela que se arrastou por mais de uma década, com direito a disputas judiciais e supostas manobras de bastidores. Desde 2005 _ quando o Ministério Público denunciou a precariedade estrutural da velha estação e do mercado (que funcionavam em repartições anexas) _ , os comerciantes que exploravam os boxes temiam ser despejados. Pois foi exatamente isso que aconteceu. O prédio velho foi ao chão. A cidade ganhou um novo terminal, e a cidade ficou sem o seu Mercado Municipal.

A nova Rodoviária começou a ser construída em fevereiro de 2013. A Prefeitura investiu R$ 2,4 milhões para erguer um prédio de 3.600 metros quadrados no Centro. Rodeada pelas quadras tomadas por edifícios centenários, a nova estação é moderna, dotada de equipamentos de segurança e recursos de acessibilidade. A inauguração _ com direito a descerramento de placa _ aconteceu no dia 18 abril. Mas, efetivamente, só funcionam as plataformas de embarque e desembarque. Por falta de telefone e internet, o guichê para a venda de passagens continua funciona em um antigo salãozinho comercial da Rua Sinhorinha Frota. As salas reservadas aos seis novos boxes comerciais e duas lanchonetes continuam vazias.

Para Roberto Donisete Angelelini, secretário municipal de Mobilidade Urbana, o governo atual usou recursos próprios e executou uma obra que, apesar de projetada desde a Administração anterior, não saiu do papel. Por quase um ano, lembra, a quadra onde existia a estação demolida permaneceu cercada de tapumes. “A gente comemora, aliviado, a inauguração de um prédio moderno, digno, que vai prestar serviços públicos importantes. Além do transporte público, a sede tem dependências para guardas-civis, assistentes sociais, produtores culturais”, diz.

Sobre a velha polêmica dos boxes, o secretário explica que, até o final do ano, a Prefeitura vai executar os procedimentos do chamamento público para definir quem vai explorar o espaço. “A Prefeitura, amparada judicialmente, é a dona legal do espaço.”, fala. “A concorrência vai definir quem vai se estabelecer. Agora a cidade tem uma estrutura moderna para atender o público.”

“Injustiça”

A inauguração da nova estação rende elogios ao prefeito Rodrigo Proença (PPS). Os usuários do transporte estão satisfeitos com a área de embarque organizada e com os banheiros limpinhos. Mas nem todo mundo, em Capivari, tem motivos para comemorar. Os donos dos boxes do antigo mercado, anexos à Rodoviária demolida, se dizem lesados, ludibriados, enganados. Os empresários dizem que perderam um espaço construído e mantidos por eles, durante cinco décadas.

O desabafo é de gente como o comerciante Waldir Antônio Pansserini, 55 anos, dono de uma loja de rações no Centro. Ele conta que, nos anos 50, foi demolido o Mercado Municipal original, que existia na praça central. Na época, a Prefeitura arrecadou, junto a famílias tradicionais da cidade, recursos para a construção de um conjunto que abrigasse a Rodoviária e o novo mercado público em um terreno disponibilizado pelo Estado. “Quem deu dinheiro para obras ganhou o direito de explorar um box. Para muita gente, o comércio no ponto virou sustento. E quem explorava box pagava imposto, religiosamente”, fala. Um dos espaços, fala, era mantido por seu avô. Pansserini, herdeiro, administrou o ponto por 20 anos. “Tirar os comerciantes de lá foi uma injustiça histórica, com quem trabalhou uma vida por ali para alimentar os filhos.”

Acontece, no entanto, que o suposto investimento dos comerciantes na construção do mercado, na década de 50, não tem reconhecimento jurídico. Se estava registrado em algum lugar, o documento se perdeu com o tempo. O espaço, para todos os efeitos, sempre foi da Prefeitura. O Município, por sinal, é que foi acionado na ação que alertava para a precariedade do prédio. Aí, no entanto, é que encontra o capítulo nebuloso da novela. Segundo Pansserini, o governo anterior não se moveu para reformar a estação e os boxes antigos, simplesmente porque tinha interesse em construir o prédio novo. “A Prefeitura desrespeitou famílias que, lá no passado, tiraram dinheiro do próprio bolso para ajudar em uma obra para a cidade”, reclama. “Teve gente que caiu de cama, de desgosto.”

BOX

Prefeitura já planejava o

terminal moderno em 2002

A antiga Estação Rodoviária de Capivari, erguida na década de 50 , contava com 20 boxes comerciais que funcionavam como mercado municipal. Em 2002, a Prefeitura já anunciava a intenção de derrubar a estação e construir uma nova no lugar. Em 2008, o antigo plano do Executivo virou lei, estabelecendo regras para a concessão pública dos novos boxes. Temerosos de perder os pontos que exploravam há décadas, 17 comerciantes ingressaram com ações possessórias, mas não conseguiram reverter a situação. Em 2012, quando as condições do imóvel eram precárias, a Justiça, atendendo à denúncia do Ministério Público, determinou a desocupação imediata das dependências que ameaçavam desabar. Na ocasião, o então prefeito Luís Campaci (PMDB) anunciou que já tinha determinado a abertura de licitação pública para as reformas estruturais necessárias, e que esperava verbas negociadas com o governo federal para as obras. Os antigos donos dos boxes se mobilizaram e pediram prazo maior ao juiz para as intervenções, mas não obtiveram êxito. O conjunto cinquentenário de prédios foi ao chão ainda em junho daquele ano. (RV/AAN)

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Escrito por:

Rogério Verzignasse