Publicado 08 de Maio de 2015 - 5h30

A tarefa de levar a inflação para a meta de 4,5% no ano que vem está mais complicada do que o imaginado inicialmente - e o objetivo deverá ser atingido apenas no fim de 2016, admitiu ontem o Banco Central. Com isso, dissipou-se entre os economistas a dúvida sobre se o ciclo de alta da taxa básica de juros, que começou logo depois das eleições de outubro, havia terminado. A Selic está hoje em 13,25% ao ano.

É certo, segundo esses profissionais, que o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá no início de junho uma nova elevação. O debate agora é entre um aumento entre 0,25 e 0,50 ponto percentual. Já se fala que o colegiado não terá como escapar de aumentar a taxa para 14% em algum momento deste ano - patamar que não é visto nos últimos nove anos.

O recado de que a situação piorou veio na ata da última reunião do Copom, realizada na semana passada, e que trouxe a análise de que o balanço de riscos para a inflação passou de “menos favorável” para “desfavorável”. No documento, o BC diz que a convergência da inflação para a meta se dará no fim do ano. Na ata anterior, a hipótese era a de que essa aproximação dos preços para o objetivo se daria ao longo de 2016. Para mostrar que está firme em sua missão de conter a alta dos preços, o colegiado recuperou uma expressão usada pela última vez em dezembro: “a política monetária deve manter-se vigilante” - a senha para os analistas começarem a rever os cenários.Vale lembrar que no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, a diretoria da instituição já contava com chance de 90% de estouro da meta este ano. De lá para cá, não houve alteração das previsões do BC para o IPCA de 2015 e 2016.

O BC também enfatizou que não vai soltar as rédeas da inflação e que combaterá ainda este ano os efeitos secundários das principais pressões inflacionárias - os preços monitorados e administrados pelo governo, como tarifas de energia elétrica e transporte público, e também a alta do dólar. Os membros do comitê trabalharam com câmbio de R$ 3,00 para fazer os prognósticos e alta de 11,8% e 5,3% para os administrados neste e no próximo ano. O que pode gerar algum alívio futuro para a inflação, ainda que o colegiado siga vendo pressão dos salários sobre os preços, é a expectativa de piora no mercado de trabalho. De acordo com a ata, “a estreita margem de ociosidade já dá indícios de distensão” - ou seja, o desemprego está aumentando.

A ata de ontem trouxe também que o consumo das famílias deve se estabilizar, justamente por conta de itens como emprego, renda e crédito - aliás, a avaliação de crescimento para os dois últimos que era registrado no documento de março foi suprimido agora. As condições financeiras “relativamente favoráveis” mencionadas na ata anterior, principalmente para o mercado imobiliário, também não constam mais da nova edição.

Em meio à votação de medidas fiscais no Congresso, o BC alertou ainda para um “período necessário de ajustes da economia”. Também já vê diminuição dos investimentos - nas palavras da instituição isso se dá por conta de “eventos não econômicos” - o que pode ser exemplificado por crise política e escândalos de corrupção. (Agência Estado)