Publicado 06 de Maio de 2015 - 19h05

Jady encontrou Eríndio na porta do Café Regina; foi logo dizendo:

— Você sabe quem vi ainda há pouco ali na Thomaz Alves, próximo ao prédio do Jóquei? Ainda estou com o perfume da mão dela aqui na minha.

— Não faço a menor ideia...

— A bela Perólia.

— Minha ex-mulher?

— Claro, ou você acha que alguma outra pessoa, neste mundo, poderia assim se chamar e ser tão bela?

— Bom — Eríndio passou as mãos no rosto — e você sabe o que isso significa?

— Pra te falar a verdade, não...

— Significa apenas, meu caro, que nunca mais, nesta vida, ela colocará os pés na rua Thomaz Alves.

Jady primeiro coçou a ponta do nariz. Depois, disse:

— Não estou entendendo.

— É simples – veio a explicação — Perólia sabe que somos amigos e sempre estamos juntos. Assim, ao te encontrar na rua que você citou, certamente concluiu ter corrido o sério risco de também encontrar comigo.

— Continuo sem entender...

— Puxa, meu, será que você ainda não sacou que todas as noites, antes de dormir, a minha “ex” reza ao Senhor pedindo que Ele não me coloque ao alcance da sua vista?

— Mas será possível?

— Claro. Quer ver? Sabe aquela padaria no Cambuí onde nós todos sempre íamos, felizes, inclusive ela? Pois bem, desde que me chutou, nunca mais lá colocou os pés. Não passa nem na porta. Porque pensa que continua nosso ponto.

— Puxa...

— E tem mais. O supermercado que ela mais gosta é o que fica perto do Centro de Convivência. Daí que, sabendo que eu também faço compras lá, agora vai adquirir suas coisinhas talvez em outro município...

— Estou pasmo...

— E vai ficar mais ainda. Pois não existia nenhum outro lugar não só em Campinas, mas no mundo, que ela mais gostasse para o lazer das suas happy hours, do que o bar perto da árvore, na Chácara da Barra. Adorava. Às sextas-feiras, então, quando lá fazem o divino pernil, nunca faltou. Mas hoje, como também sabe que apareço de vez em quando no pedaço, riscou o barzinho do mapa.

— Bom, se é assim ela nunca mais vai, mesmo, passar pela rua Thomaz Alves; afinal, estamos sempre por lá...

Esse papo relativamente exótico ficou por aí só que Jady, ao ir embora, levou o que ouvira na cabeça. Inclusive não conseguia imaginar Perólia, que até gostara um pouco de Eríndio, passando a ter por ele tamanha repulsa. Inclusive porque, ao que Jady sabia, o rompimento nem ocorrera com lances dramáticos. Houve apenas mal-entendido que poderia ser interpretado como mero desamor por parte dela, porém, nada a ponto de levar a extremos. Assim, no correr dos dias, continuou Jady a pensar na coisa. E mesmo estando com Eríndio sempre, nunca mais abordou o sofrido tema com ele. Até porque sabia que a atitude da fulana de alguma forma o desconsolava, sem significar que o abandonado tivesse, por ser inútil, qualquer intenção de reconquistá-la.

Foi quase um mês depois do tal encontro na rua Thomaz Alves que Jady resolveu. Tocou o telefone para Eríndio:

— Escuta — começou — você quer fazer uma aposta comigo?

— Aposta? Que aposta?

— Eu acho que nesta tarde a Perólia irá ao bar que adora, perto da árvore, na Chácara da Barra. Não esqueça que hoje é sexta-feira, dia do famoso pernil que ela ama de paixão.

— Duvido que vá. É mais fácil dois camelos passarem pelo buraco duma agulha...

— Então vamos apostar?

— Apostar o que?

— Uma garrafa de vinho.

— Nunca na minha vida — Eríndio suspirou — ganharei tão fácil uma botelha de boa cepa.

Assim foi que pouco antes das 18 horas os dois amigos se postaram estrategicamente dentro do carro com películas nos vidros, do outro lado da rua, para ficar de olho nas mesas externas do barzinho. E, de fato, nem meia hora havia se passado quando, de repente, o que veem? Nada mais, nada menos, do que a radiosa Perólia chegar sorridente, a exalar esfuziante alegria na companhia de vários amigos. Sentaram, chamaram cervejas e poções fartas do fantástico pernil, com muitos risos, especialmente da linda (ex) mulher. Nessa altura, pálido de espanto com o que o via, Eríndio aperta o braço de Jady:

— Está certo, perdi a aposta. Mas, vem cá, como é que você sabia que ela ia pintar aqui hoje? E alegre deste jeito, até parece que ganhou sozinha a Mega Sena!

— Ora, muito simples. Apenas, faz algumas horas, liguei pra Perólia com tom de voz fúnebre, e contei que você acabara de morrer de infarto agudo do miocárdio, numa praia perto de Florianópolis; acentuei ser ela a primeira pessoa em Campinas a ser informada.

Eríndio se ajeitou no banco. Após, comentou:

— Bom, comemorando deste jeito meu desencarne, vai enfartar quando souber que estou vivo; e a culpa será tua!...

Daí saíram para outro bar; onde a aposta seria paga.