Publicado 31 de Maio de 2015 - 5h30

O estúdio de fotografias Bela Imagem, com sede em Campinas, tem sofrido com a viralização na internet de uma montagem que liga um dos serviços da empresa ao rapto de crianças e tráfico de órgãos. As mensagens se disseminaram nas redes sociais desde o começo do mês e mostram uma van, que serve como estúdio móvel, ao lado do corpo de um menor. Com a divulgação em massa, surgiram incidentes em todo o País, como a depredação de um dos veículos e ameaças e agressões a funcionários. A empresa vai entrar com uma ação judicial para solicitar ao Facebook os IPs dos supostos autores da manipulação. A Polícia Civil informou que investiga o caso.

No ramo há dez anos, a Bela Imagem tem dez vans que são equipadas com roupas, câmera fotográfica, cenário e iluminação. Os veículos são usados principalmente para fazer sessões de fotos em lojas de roupas infantis em 20 Estados. De acordo com a advogada da empresa, Fabiana Braga, boatos surgidos no WhatsApp e Facebook diziam que havia uma van que batia nas casas, sequestrava e retirava os órgãos de crianças. No início, não houve prejuízo para a empresa quando eles chegaram à internet. O problema começou quando uma postagem ligou a prática criminosa a uma imagem de um dos veículos do estúdio. “Gente, esta van está rodando várias cidades oferecendo tirar fotos de crianças de graça. Mas essa informação é falsa. Na verdade, estão acontecendo raptos de crianças para retirada de órgãos”, diz o texto.

O primeiro incidente foi registrado no início do mês com uma equipe na cidade de Feira de Santana, na Bahia. Os funcionários foram ameaçados na rua e a empresa fez um boletim de ocorrência. Na semana seguinte, o número de casos deste tipo aumentou. Foram registrados problemas em Recife, Fortaleza, João Pessoa e Barbacema, em Minas Gerais. Na também mineira Divinópolis, uma van fazia a promoção do serviço quando foi cercada por populares e um dos funcionários foi agredido com um soco. Um homem chegou a ameaçar representantes da Bela Imagem com uma arma de fogo na capital paulista. O caso mais grave, no entanto, aconteceu em Luziânia, em Goiás, onde o veículo utilizado para o trabalho foi vandalizado. A van só não foi incendiada porque a Polícia Militar chegou a tempo e dispersou os vândalos. “Onde tinha um estúdio da Bela, mesmo que não tivesse a van, a gente não conseguia trabalhar porque os funcionários estavam sendo hostilizados e ameaçados pelos consumidores em geral”, afirmou a defensora.

Campinas também registrou ocorrências por causa da falsa imagem. Após levar um veículo para trocar os vidros (que foram quebrados em Luziânia) em uma oficina no Centro, um funcionário precisou dar explicações após a Polícia Militar ser chamada para apurar a falsa denúncia de tráfico de órgãos. No bairro Vida Nova, na região do Ouro Verde, uma equipe foi abordada por um homem que disse que eles deveriam sair da comunidade. “Some daqui porque você não vai entrar no meu bairro e daqui ninguém vai levar crianças”, disse.

A advogada disse que fez boletins de ocorrência para todos os incidentes, em todas as cidades onde eles ocorreram. Como a empresa é de Campinas, esperava uma investigação feita pela Polícia Civil local para apurar quem são os autores da manipulação. No entanto, ao procurar o 4 Distrito Policial, no Taquaral, não teve uma resposta positiva. “A polícia disse que, a princípio, não teria as ferramentas para fazer isso. Temos que tentar descobrir os IPs para dar início a uma investigação. Infelizmente a posição não é muito acalmadora”.

Fabiana chegou a solicitar ao Facebook as informações, mas recebeu ontem a orientação de que isso só seria possível por meio de uma ação na Justiça. O pedido será impetrado na próxima semana. A reportagem não conseguiu confirmar a informação com a rede social. Por meio da assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), o delegado titular do 4 DP, Maurício Geremonte, informou que “o caso citado foi registrado naquela unidade e, como os crimes ocorreram nas áreas do 1 (Centro) e 9 DPs (Jardim Aeroporto), foram encaminhados para essas delegacias, que já receberam os expedientes e estão investigando os casos.” O delegado disse ainda que não forneceu a resposta alegada pela advogada e que as investigações buscam identificar os autores.

Impacto

Os incidentes tiveram impacto significativo nas finanças do estúdio de fotografias Bela Imagem. A empresa faz cerca de 30 mil fotos por mês, mas viu um prejuízo de R$ 800 mil se acumular depois da disseminação da imagem nas redes sociais. “A gente está tendo problema tanto para tirar quanto para vender as fotos. As pessoas que compraram por boleto bancário também acabam vendo a postagem e não pagando”, disse um dos proprietários da empresa, Cristiano Santos Meneses. O maior público do estúdio é a classe D. Das dez vans da Bela, cinco precisaram ser removidas e estão paradas em Campinas. A outra metade continua em operação no sul do País, única região onde não houve até agora problemas por causa das postagens. “A gente já não está num ano bom, e ainda pega um problema desse. Acaba prejudicando muito.”