Publicado 09 de Maio de 2015 - 5h30

Um parêntese: há momentos — felizmente raros — em que a história pessoal se impõe às percepções conjecturais e o relato na primeira pessoa, embora singular, parcial, às vezes suspeito, sobrepõe-se à narrativa impessoal, ampla, genérica.

O silêncio e os indícios de esquecimento que ontem, sexta-feira, rodearam os setenta anos do fim da fase europeia da 2ª Guerra Mundial me sobressaltaram. O ano de 1945 pegou-me com 13 anos e a data de 8 de Maio incorporou-se ao meu calendário íntimo e o cimentou definitivamente às efemérides históricas que éramos obrigados a decorar no ginásio.

Seis anos antes (1939), a invasão da Polônia pela Alemanha hitlerista e logo depois pela Rússia soviética empurrou a guerra para dentro da minha casa através dos jornais e do rádio: as vidas da minha avó paterna, tios, tias, primos e primas dos dois lados corriam perigo. Em 1941, quando a Alemanha rompeu o pacto com a URSS e a invadiu através de fulminantes ataques, inclusive à Ucrânia, instalou-se a certeza: foram todos exterminados.

A capitulação da Alemanha tornara-se inevitável, não foi surpresa, sabíamos que seria esmagada pelos Aliados. Nova era a sensação de paz, a certeza que começava uma nova página da história. A prometida quimera embutida na frase “quando a guerra acabar” tornara-se desnecessária.

A guerra, parecia, acabara para sempre, inclusive para nós brasileiros, os únicos latino-americanos que foram ao Velho Mundo ensinar que o ódio não era a solução, sobretudo o ódio aos diferentes e inferiores. Enquanto os destacamentos da F.E.B. a Força Expedicionária e da F.A.B., a Força Aérea Brasileira, retornavam da Itália e delirantemente recebidos na Avenida Rio Branco, da ex-capital, matutinos e vespertinos — mais atentos do que a mídia atual — nos alertavam que a guerra continuava feroz não apenas no Extremo Oriente, mas também na antiquíssima Grécia onde guerrilheiros de direita e de esquerda, esquecidos do inimigo comum — o nazi-fascismo – se enfrentavam para ocupar o vácuo de poder deixado pela derrotada barbárie.

Sete décadas depois – porção ínfima da história da humanidade — aquele que foi chamado Dia da Vitória e comemorado loucamente nas ruas do mundo, metamorfoseou-se em Dia das Esperanças Perdidas: a guerra não acabou. Está ai, espalhada pelo mundo, camuflada por diferentes nomenclaturas, inconfundível, salvo em breves hiatos sem hostilidades, porém intensos ressentimentos. A Guerra Fria foi quentíssima, continua acesa, sem ideologias, mas com bandeiras tacanhas e esfarrapadas ainda mais assanhadas. As Guerras Santas acirraram-se.

Se a fugaz promessa e a brevíssima paz do 8 de Maio não mereceram ser devidamente comemoradas, a certeza de que as guerras são contínuas, infindáveis, deveria ser constatada. Como advertência de que não basta suspender tiroteios ou obrigar vencedores e vencidos a sentarem-se juntos para assinar uma papelada inútil.

Indispensável extirpar os motivos que levam à loucura nações e civilizações aparentemente sábias. França e Alemanha são admiráveis exceções que não podem ser esquecidas. Compreenderam que conflitos entre nações são projeções de conflitos internos que democracias desleixadas permitem magnificar. A Guerra Fria nos impôs a trágica experiência da ditadura militar. Outras guerras distantes poderão nos enfiar em confrontos indesejados.

Pivôs centrais de cinco catástrofes europeias e mundiais (a partir do século XVII até o XX), França e Alemanha deveriam servir de modelo para construir a paz efetiva, real, funcional.

“Quando a guerra acabar” é o título de um sonho cabível, perfeitamente realizável. Exige apenas a obrigação de lembrar e esperar.