Publicado 07 de Maio de 2015 - 5h30

A Prefeitura de Campinas retoma este mês as negociações com o governo do Estado para ter a posse definitiva do edifício da antiga indústria Lidgerwood, onde funciona o Museu da Cidade, e poder, assim, recuperar o prédio, que tem sérios problemas de infraestrutura e está fechado para exposições. A proposta de reforma e restauro e adequação da edificação ao projeto museológico, que nunca foi implantado, será escolhido em um concurso nacional de arquitetos e todo o custo de recuperação da edificação, ainda não calculado, será bancado pela venda do potencial construtivo da edificação, informou o secretario municipal de Cultura, Ney Carrasco.

A Companhia Paulista de Obras e Serviços (CPOS), empresa do governo estadual e proprietária do imóvel, quer vender o prédio, mas ainda não estabeleceu um valor. Até hoje, o Museu da Cidade — que está sem seu acervo e usa o espaço para atividades de divulgação da cultura imaterial — ocupa aquelas instalações por um termo de cessão provisória obtido no ano passado e válido por dois anos. “Para podermos fazer o investimento necessário, precisamos de uma cessão de pelo menos 50 anos”, afirmou a coordenadora do museu, Adriana Barão.

O secretário de Cultura disse que a Prefeitura vai tentar negociar a posse do prédio trocando eventuais dívidas tributárias que a CPOS tenha com a Prefeitura ou trocando a construção por algum prédio de propriedade do Município que a empresa possa ter interesse ou ainda, dependendo do preço, adquirir o imóvel.

Esse uso precário, que impede investimentos na recuperação, foi o responsável pelos danos provocados ao acervo do museu, que durante anos foi vítima de goteiras. O descaso com aquele espaço cheio de infiltrações e problemas no sistema elétrico se arrasta há mais de dez anos, pondo em risco um rico acervo de mais de 7 mil peças, sem que haja intervenção para a recuperação de um dos patrimônios mais importantes do município.

O Museu da Cidade tem em seu acervo cestaria e arte plumária, objetos e quadros do século 19. Há importantes peças do século 18, um tronco de escravos, liteiras e coleções de aquarelas de José de Castro Mendes que mostram a evolução da cidade.

Uma parceria com o Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) permitiu, com apoio de Rosaelena Scarpeline, o treinamento de pessoa que está se dedicando à preservação das peças, com limpeza, catalogação e acondicionamento do material. Sem uma reserva técnica no prédio, o acervo está sendo embalado depois de tratado e guardado em uma das salas da Estação Cultura. Só voltará ao museu quando o prédio tiver condições de abrigar o material, disse Adriana Barão.

Entre os objetos que foram tratados estão liteiras, peças mais antigas do século 19 que compõe o acervo do museu. Elas são representativas desse trabalho. Estavam embaixo de goteiras e, por isso, o couro e a madeira foram danificados. Foi feito um processo de higienização e hidratação pela equipe do museu.

Nesta semana, informou Adriana, foi firmado um termo de comodato com o Museu Universitário da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e as peças ficarão em exposição, com previsão de captação de recursos para seu restauro em parceria com o museu universitário.

Série de rodas e encontros explora cultura imaterial

A programação do Museu da Cidade tem-se voltado para a exploração da cultura imaterial, uma vez que seu acervo foi retirado do espaço para recuperação e catalogação. Todo primeiro sábado do mês, vem ocorrendo a Roda de Conversa sobre Capoeira, como mais uma ação museológica voltada para o patrimônio imaterial da cidade. As rodas são abertas e gratuitas a praticantes de todos grupos de capoeira e para o público que deseja conhecer e observar a prática. A cada sábado, há a coordenação de um mestre ou contramestre diferente, buscando trazer a diversidade de grupos e estilos da capoeira de Campinas.

Outra atividade é a Roda de Prosa, que ocorre todo sábado, das 14h às 17h, onde são discutidas e elaboradas ações colaborativas para promoção da cultura caipira, especialmente da música sertaneja de Campinas. No próximo sábado, terá a participação especial do violeiro João Arruda, com registros audiovisuais do professor Paulo Campos.

O Encontro com a Cidade, evento anual, promove a discussão sobre temas relacionados à história, memória, patrimônio imaterial da cidade e temas de interesse da área da museologia. Este ano, acontece no próximo dia 21 no auditório do Ceprocamp e terá parceria do Museu do Café e Museu Universitário da PUC-Campinas. O público terá a oportunidade de refletir sobre a ação dos museus para além de seus prédios, atuando de forma ampliada no território cultural da cidade, através da participação do representante do Sistema Estadual de Museus (Sisem), Davidson Kaseker.

A palestra sobre a trajetória dos museus nacionais irá destacar a discussão sobre a busca de uma identidade brasileira a partir das coleções, instalação das instituições e suas atuações. Esse debate será instigado pela professora da área de patrimônio e coordenadora do Museu Universitário da PUC-Campinas, Janaína Camilo.

No período da tarde, haverá exibição e debate sobre o curta-metragem recém-lançado Café, um Dedo de Prosa, do diretor Maurício Squarisi, que estará presente no debate. (MTC/AAN)

Acervo busca contar história sob todas as perspectivas

O Museu da Cidade foi criado em 1992 a partir da fusão do acervo de três museus que funcionavam no Bosque dos Jequitibás: Museu Histórico, Museu do Folclore e Museu do Índio. Seu objetivo é a preservação e discussão da memória e da história de Campinas e de seus diversos agentes sociais, resgatando as camadas populares como agentes da história. Isso porque, na antiga concepção, os objetos históricos eram aqueles das elites, enquanto os objetos das camadas populares pertenciam ao folclore ou ao indígena.

O prédio, que pertenceu a uma antiga indústria importadora de equipamentos agrícolas e industriais, fica em frente à Estação Ferroviária. A Lidgerwood funcionou em Campinas até 1922, mas uma década depois de implantada já começava a enfrentar problemas em decorrência da instabilidade econômica provocados pela febre amarela e pela concorrência de outra empresa, a MacHardy.

Em 1928, o prédio passou a pertencer à Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Nessa adaptação do edifício para amplos espaços de armazéns e depósitos, o projeto original descaracterizou-se: foram removidos os andares e a chaminé e fechadas várias aberturas.

Nos anos 80, o prédio seria demolido para abrir caminho para o segundo túnel que ligaria o Centro à Vila Industrial. Muitos protestos foram realizados, comandados pela entidade preservacionista Febre Amarela, que tinha à frente o prefeito de Campinas Antonio da Costa Santos (PT), assassinado em 2001, e o projeto acabou modificado para preservar o edifício. (MTC/AAN)