Publicado 31 de Maio de 2015 - 5h30

“Preso por quê?" Foi assim que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, respondeu a uma bateria de perguntas da imprensa em uma primeira entrevista coletiva desde que o escândalo de corrupção na entidade eclodiu, na quarta-feira.

Um dia depois de ser eleito para o seu 5 mandato na entidade máxima do futebol, Blatter falou sobre as detenções de sete dirigentes, entre eles José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). E garantiu que não pedirá demissão, se recusando a assumir qualquer culpa ou envolvimento nos pagamentos de propinas. Num dos trechos da investigação do Departamento de Justiça dos EUA, um pagamento de US$ 10 milhões é feito a um de seus vice-presidentes, Jack Warner, num dinheiro que teria passado pela Fifa.

O valor seria a propina da África do Sul para ganhar votos para a Copa de 2010. Warner protestou diante do fato de o dinheiro não ter sido depositado e pediu para a Fifa. O dinheiro acabaria vindo do Comitê Organizador da Copa do Mundo, controlado em parte pela entidade que comanda o futebol.

O FBI faz mistério se Blatter está entre os investigados e ontem o nervosismo do dirigente era nítido diante das perguntas sobre um eventual envolvimento. Warner, há poucos dias, chegou a insinuar que o suíço teria sido informado do pagamento. "Se eu recebi isso, quem pagou?", questionou o dirigente tobaguiano.

Blatter respondeu ontem: "Não comento alegações. Vamos deixar as investigações seguirem. Mas definitivamente não sou eu o mencionado", disse. "Eu não tenho esses US$ 10 milhões."

Para o suíço, a ação policial dos Estados Unidos contra a Fifa seria uma maneira de revanche contra o fato de o país ter perdido a Copa de 2022 para o Catar. "Não foi uma simples coincidência esse ataque americano, a dois dias das eleições da Fifa", disse o dirigente. Para ele, se os delitos foram cometidos por cartolas sul-americanos e norte-americanos, "não vejo como a Fifa possa estar envolvida."

Demissão

Os primeiros sinais de racha já começaram a aparecer na Fifa ontem. Um dos vice-presidentes da entidade, o britânico David Gills, anunciou sua demissão do cargo em protesto à eleição de Joseph Blatter.

O suíço vai enfrentar uma dura oposição. "Não é apropriado ser membro do Comitê Executivo da Fifa sob a atual liderança", disse Gills. "Reconheço que ele (Blatter) foi democraticamente eleito. Mas minha reputação profissional é fundamental para mim e não vejo como possa haver uma mudança no futebol enquanto ele estiver no cargo", completou o britânico, que foi o CEO do Manchester United e ocupa cargos de poder dentro do futebol europeu. (Da Agência Estado)

Teixeira acompanha as investigações em silêncio

O nome de Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, não aparece nas investigações da Justiça norte-americana que levou à prisão sete dirigentes da Fifa, entre os quais o também ex-presidente da CBF José Maria Marin. Mas os procuradores de Nova York declararam que o caso está "no começo". Entre as operações investigadas pelo Departamento de Estado estão contratos de patrocínio assinados durante a gestão de Teixeira na CBF, de 1989 a 2012.

Após passar uma temporada em Mônaco, Teixeira retornou ao Brasil no início desta semana e se instalou em sua residência no bairro do Itanhangá, na zona oeste do Rio, onde vive uma rotina reclusa. Desde que chegou, ele pouco deixou seu imóvel e durante a semana, frequentemente, recebeu a visita de seus advogados.

Teixeira acompanha em silêncio os desdobramentos do escândalo de corrupção desencadeado pelas investigações da justiça norte-americana, que resultaram na prisão de antigos aliados.

Um deles foi José Maria Marin, vice-presidente em seus últimos anos de gestão. Marin é acusado de cobrar propinas milionárias em diversos contratos da entidade, a partir do momento em que sucedeu Teixeira na presidência.

A residência onde Teixeira mora fica em um luxuoso condomínio, que mais parece uma fortaleza, dada a grande quantidade de câmeras espalhadas em seu interior e seguranças armados vigiando o local. Além do ex-presidente da CBF, o atacante Fred, o ator Bruno Gagliasso e a atriz Ísis Valverde são outros famosos proprietários de imóveis no condomínio. (AE)

América do Sul mantém vagas para a Copa do Mundo

Os países sul-americanos levaram a maioria dos seus votos para Joseph Blatter na eleição da Fifa e garantiram suas vagas na Copa do Mundo. Ontem, a entidade que comanda o futebol se reuniu e definiu os lugares para cada confederação nos Mundiais de 2018 e 2022. A América do Sul temia perder uma das vagas diante da pressão internacional. Mas, assim que venceu, Blatter declarou: "Não mexeremos na Copa do Mundo".

A declaração de Blatter foi comemorada pelo presidente da Conmebol, Juan Napout. "Vamos manter as mesmas vagas até 2022", disse, ao deixar a reunião na manhã de ontem, em Zurique. Os sul-americanos têm quatro vagas garantidas para a Copa e uma quinta passa por uma repescagem.

Antes da vitória de Blatter, Napout admitia que a perda da vaga era "uma chance real". Para complicar, a ausência de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF que retornou ao Brasil na semana passada, poderia afetar a votação de ontem. O brasileiro é um dos 25 membros do Comitê Executivo da Fifa. (AE)