Publicado 08 de Maio de 2015 - 5h00

Por Rogério Verzignasse

Obras de reforma da Basilica de Americana são embargadas pelo Ministério Público devido a mudanças na cor usada

César Rodrigues/ AAN

Obras de reforma da Basilica de Americana são embargadas pelo Ministério Público devido a mudanças na cor usada

A restauração da Basília Menor de Santo Antônio, em Americana, foi suspensa pela Justiça, que acatou um parecer do Ministério Público (MP) questionando procedimentos que teriam descaracterizado a pintura interna do templo. Obras executadas entre julho novembro do ano passado deram coloração mais acentuada a colunas da nave principal.

O templo, porém, se encontra em processo de tombamento e qualquer intervenção deveria ter sido autorizada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Americana (Condepham). Aí se instalou a polêmica que toma conta da cidade. Os fiéis se encantaram com os detalhes arquitetônicos em cores vivas. Para arquitetos e historiadores, foram abolidas as tonalidades pastéis do projeto original.

Consenso

Até que as partes não entrem em consenso, os serviços estão paralisados. De acordo com o padre Leandro Ricardo, reitor do santuário, a pintura mais viva não descaracteriza o imóvel. O que acontece, na sua opinião, é que o templo, belíssimo, jamais passou por uma reforma desse nível, e todas as dependências eram revestidas com uma tinta que desbotou.

Além disso, fala, a reforma serviu para recuperar um prédio avariado pelo tempo. As obras executadas consumiram recursos da ordem de R$ 230 mil. “A própria comunidade colaborou com os recursos que deram vida nova ao templo. Os católicos investiram para recuperar o prédio, que é o maior patrimônio cultural da cidade”, diz o reitor.

Posição do Condepham

Do outro lado, no entanto, o arquiteto Heliton Escorpelo, presidente do Condepham, afirma que o padre errou ao executar um projeto que desrespeita características de um prédio que é histórico. “Nem sabemos quem é o responsável técnico da obra. O mínimo que o reitor devia fazer era expor, no conselho, detalhes das intervenções que pretendia fazer”, argumenta.

“Reconhecemos, sim, que o padre teve a boa vontade de restaurar um imóvel degradado por goteiras e manutenção falha. Mas não se pode admitir que a pintura interna não siga critérios essenciais.”

Foto: César Rodrigues/ AAN

Para o Condepham,  não se pode admitir que a pintura interna não siga critérios essenciais

Para o Condepham, não se pode admitir que a pintura interna não siga critérios essenciais

 

Cor da polêmica

As partes andam estremecidas desde o ano passado. Na época, a basílica recebeu uma imagem muito especial de Nossa Senhora Aparecida, oferecida pelo Santuário Nacional. A santa passou a ocupar um nicho projetado logo na entrada principal do tempo. E a parede nos fundos da imagem foi pintada de azul-marinho, o que deixou os historiadores de cabelo em pé.

Na ocasião, no entanto, o padre explicou que a cor escolhida fazia referência ao manto de Nossa Senhora. O tema já parecia superado. Mas as discussões esquentaram de novo quando começou a pintura das colunas, com tons fortes de vermelho e lilás tanto no térreo quanto no mezanino, piso superior contíguo ao coral. 

Afrescos

Outra intervenção tem provocado muita discórdia. Para proteger os lindos afrescos pintados com cenas bíblicas em paredes de todo o templo, a reforma os revestiu com uma película transparente especial. Em tese, seria um cuidado para proteger os desenhos. Para o Condepham, no entanto, a medida foi infeliz. O produtor de áudio e vídeo Eduardo Milani, um dos conselheiros, diz que o revestimento, como um verniz, corre o risco de “craquelar” com o tempo, ou seja, ficar tomado por minúsculas trincas.

Enquanto a cidade se divide sobre as intervenções, as partes acertam data para conversar e entrar em acordo. Na quarta-feira (6), a assessoria do reitor se dispôs a apresentar o projeto detalhado das obras já executadas e as ainda planejadas. Ontem, a direção do Condephan anunciou que tem reunião marcada para relacionar tópicos que serão apresentados ao reitor.

<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/2WYyGZ2ix6g" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>

Templo é o maior em estilo neoclássico do Brasil

A Basílica Menor de Santo Antônio de Pádua é o maior templo neoclássico do Brasil. O prédio começou a ser construído em 1950 e é famoso por possuir um rico acervo artístico-religioso. Pelas paredes e pelo teto, se espalham afrescos retratando cenas bíblicas. O lado externo da cúpula é decorado por 12 imagens gigantescas, modeladas em barro e fundidas em cimento. Há lustres refinados e vitrais importados pelas naves.

Mas a igreja, antes de mais nada, é um patrimônio cultural da cidade. O prédio foi construído a partir de campanhas incansáveis de arrecadação de recursos em paróquias, empresas e gabinetes. O templo ganhou retoques finais em 1977. 

Proteger o patrimônio

O Condepham, integrado por representantes indicados pela sociedade civil e poder público, nasceu em 2003 com a proposta de estabelecer critérios para proteger o patrimônio arquitetônico de Americana, que virava ruínas. A movimentação pela criação do conselho começou na década de 80, quando a Prefeitura permitiu a demolição dos imóveis centenários de Carioba, bairro operário onde brotou ao redor da primeira tecelagem da cidade.

Do complexo erguido com traços da arquitetura alemã, restam três prédios usados pela Administração como espaços culturais. Onde havia o casario, agora só existe mato.

Escrito por:

Rogério Verzignasse