Publicado 08 de Maio de 2015 - 5h00

ig-cecílio

AAN

ig-cecílio

Desculpem-me as mamães — incluindo a minha e a de meus filhos, já falecidas — mas a celebração eu a farei para mim mesmo. Esqueçam-se, por favor, do homem adulto, experiente, velhusco. Pois voltei a ser criança, e também adolescente, e também jovenzinho, e também moço com todos os sonhos e esperanças. Retornei no tempo e, a cada dia, faço uma viagem, agora um reinício. Sinto-me o mais feliz dos seres humanos. Tenho direito, pois, de celebrar.

Descobri ser, a minha, toda ela uma história musical. Pois nasci num lar pobrezinho, em pleno fragor da Segunda Guerra, mas ouvindo acordes de piano e de violino. E sentindo o perfume de tinta das pinturas em tela de minha mãe. Não entendo até hoje — a não ser por uma bênção divina — como podia haver tanta musicalidade e arte naquela família devastada por tragédias e por uma pobreza dolorosa. Minha irmã ao piano; meu pai, ao violino; minha mãe, traduzindo, em cores, seus todos sentimentos.

A música interrompeu-se por algum tempo, como num réquiem silencioso. Minha irmãzinha caçula foi atropelada. Meus pais pareciam ter morrido também. Deitaram-se um ao lado do outro, abraçados, apenas chorando e chorando, um pranto que, aos poucos, foi-se tornando um dueto de gemidos e de soluços frágeis.

Recusavam-se a se levantar, a reagir. E a fome não nos perdoou, a nós, crianças que vivíamos aquela dor sem compreendê-la. Então, a minha irmã, a mais velha — então, uma adolescente de apenas 14 anos — enfrentou o mundo. Com a música.

Ela — cujos mestres a viam como futura virtuose — passou a “dar aulas de piano”. Vizinhos e amigos caridosos matriculavam suas crianças, uma compassiva e delicada maneira de ajudar. Era aquele dinheirinho que nos mantinha. E eu, aos meus 6 anos, decidi que deveria ser o “homem da casa”, por ser o menino mais velho. Fiz minha caixa de engraxar sapatos, fui ser engraxate no jardim.

O fato é que, em plena tragédia, a música retornou-nos à casa. E eu, ouvindo aqueles aluninhos dedilhando as primeiras lições, retive os exercícios na memória. E passei a repeti-los ao piano, de ouvido, quando minha irmã não estava. Mas, à tardezinha, retornando da escola, eu me escondia no fundo do quintal, sob uma mangueira, ao ouvir minha irmã fazendo os seus estudos para o conservatório que não podíamos pagar. Ela tocava Chopin e ele me entrava na alma, pungia-me o coração, e a saudade me explodia pelos olhos.

Tentei aprender a tocar piano. Na primeira aula, minha irmã dispensou-me. Eu não lia, ia tocando de ouvido. E ela sentenciou: “Você, com esse ouvido, nunca irá aprender música”. E não aprendi. Mas vivi dela, com ela. E daí, agora, minha celebração, meu “benedictus”, minha epifania. Pois ganhei de minha mulher uma vitrolinha de discos de vinil. Meu coração, ao ver o caixotinho, saltou feito um cabrito. Beijei e abracei mil vezes minha mulher. E me senti merecedor daquela graça. Pois acreditei na volta do parafuso.

Meu primeiro “long playing” — era esse o nome — ganhei-o aos 13 anos, a trilha sonora do filme 'História de Glenn Miller'. Eu — com paixonites adolescentes — deitava-me no chão e, ouvindo, sonhava, parecendo, a velha eletrola de meus pais , ser a caverna de Aladim. Cada mísero tostão que eu ganhara era guardado para comprar o milagre do vinil.

Em resumo: minha vida — descobri-o agora — posso contá-la por discos de vinil: o rock, Elvis Presley; as serestas, Silvio Caldas; a “nossa” música com cada namorada, Violetas Imperiais, com quem se tornou mãe de meus filhos. E, a cada ano, um novo deslumbramento: Lucho Gatica, Mercedes Sosa, Violeta Parra, Sarita Montiel, Trio Los Panchos. E, então, Vinicius e Jobim, Claudete Soares, Maria Creuza, Leny Eversong, a divina Lizeth Cardoso, Chico, Milton, Toquinho, Elis; os protestos desafiadores de Joan Baez, de Jimi Hendrix; Frank Sinatra, Tony Bennet, Sarah Vaughn, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Freddie Mercury — o infindável universo da bossa nova, da MPB. Do jazz e do blues, Chet Baker, Louis Armstrong.

E a coleção completa dos clássicos, companheiros inseparáveis na minha solidão de escrever. E quantos mais!

Eram centenas de discos, empilhados, empoeirando-se, derrotados pelo império dos CDs. Desprezei os de vinil. Mas nunca tive coragem de desfazer-me deles, apesar da insistência da família para desfazer-me de tanta velharia. Nunca o fiz, jamais quis fazê-lo.

Agora, é indescritível o prazer de, delicadamente, com a flanela nas mãos, limpá-los um a um, colocá-los na vitrolinha, estirar-me no chão e entrar no paraíso de minha história. Cada música devolve-me um pedaço vida. E descubro o quanto fui feliz. E o quanto ainda o sou.