Publicado 05 de Maio de 2015 - 5h00

Por Manuel Carlos Cardoso

Manuel  carlos cardoso - IG

AAN

Manuel carlos cardoso - IG

Na década de 70, defendi um fazendeiro da cidade de Brotas em um caso de alimentos. Seus bois, ele mesmo ia buscar no Uruguai, com um grande e velho caminhão, fazendo de cada viagem uma aventura. No primeiro encontro, ao assinar a procuração, pediu que usasse de toda criatividade possível para fazê-lo escapar da cobrança. Disse a ele que seu caso era irremediavelmente perdido e que fosse preparando os recursos necessários porque sua prisão poderia ser decretada.

Com tranquilidade, respondeu que cumpriria a pena, mas não daria um tostão sequer para a bruxa de sua ex-mulher.

O processo corria na comarca de Rio Claro, minha terra natal, que possuía naquela época uma única Vara. O juiz era o saudoso Luizinho Arruda, amigo de meus pais, mas que sabia muito bem separar as coisas quando vestia sua toga.

Em pouco tempo, decretou a prisão do teimoso e mandou recolher o homem. Já preso, tentei convencê-lo a depositar o valor da dívida, mas recusou decididamente, dizendo-me que não trabalhava feito um camelo para sustentar aquela bruxa com que tinha sido casado e traído.

Resolvi fazer uma última tentativa e fui visitar dr. Luiz, que apesar de rigoroso era muito humano. Cheguei ao Fórum e fui recebido por ele com um grande sorriso e um carinhoso abraço:

— Senta aí, Manuel, que eu vou pedir na cantina uns bolinhos de chuva e um café fresquinho, mas espero que você não me peça para soltar aquele malandro, porque eu não vou soltar.

Mesmo com o teimoso preso, a execução de alimentos prosseguiu e alguns bois foram penhorados. Dias após, seu capataz foi ao meu escritório entregando-me um atestado do veterinário da fazenda certificando a morte dos bois penhorados.

Comuniquei o fato ao juiz e nova penhora foi feita, recaindo sobre outros bois. Recebi novo atestado de óbito e, sabendo que dr. Luiz estava irritadíssimo, fiz uma visita ao cliente para adverti-lo de que sua prisão poderia ser prorrogada, desta vez, como depositário infiel.

— O que vou dizer ao juiz? É a segunda vez que os bois penhorados morrem, disse-lhe.

— Diga a ele para parar de penhorar os bois doentes, respondeu.

Sinceramente, não me recordo do nome do malandro, mas soube que, posto em liberdade, vendeu a fazenda e mudou-se para Alagoas, sem pagar um tostão para a bruxa.

Certamente é agora um homem experiente e sabe que não pagar alimentos dá cadeia, mas mentir, ser adúltero, fraudar documentos, receber propinas de empreiteiras de obras públicas dá é notoriedade.

Basta posar de vítima, dizer que invadiram sua privacidade e está sendo boi de piranha, para que o resto da boiada de corruptos escape ilesa. Prostituir-se na política não dá cadeia, porque sempre aparecerá uma cafetina para relatar o seu caso e arquivá-lo.

Escrito por:

Manuel Carlos Cardoso