Publicado 31 de Maio de 2015 - 5h00

Eduardo Gregori

Leandro Ferreira/ AAN

Eduardo Gregori

Eduardo GregoriEscrevi há alguns meses que, para mim, a maior viagem de todas é a maternidade. E que viagem maravilhosa deve ser. Mas havia me esquecido de escrever sobre outra viagem que nos enriquece a alma e nos transforma: a viagem interior.

Esta semana perdi meu pai, pessoa com quem não tive muita ligação afetiva. Nos últimos meses ele estava doente e eu preparava sua vinda para minha casa. Decidi tomar conta dele em sua velhice.

Nesse processo de esperar sua melhora para suportar uma viagem entre Belo Horizonte e Campinas ele na verdade foi piorando, ao ponto que eu pedi a Deus que o levasse.

O mais confortante nesta história é que, um dia antes de sua morte, eu mal consegui dormir.

Minha mente girava e girava me puxando para uma viagem no tempo, me convidando para rever momentos do passado, da minha infância, dos momentos poucos, mas felizes que tive com ele.

E me lembrei de tanta coisa boa, de nossas pescarias, de domingos na piscina do clube perto da nossa casa e de sua torcida quando eu lutava judô.

Daqueles momentos singelos passei pelos anos difíceis de nossas tentativas de convivência, de nossas incompreensões de um pelo outro e de nosso afastamento.

Quanta mágoa, quanta raiva, quantas lágrimas. Reviver sentimentos ruins anos depois é sentir tudo de novo, mas com a benção da maturidade, que nos traz calma e nos apazígua a alma e o coração.

Foi uma viagem e tanto, um momento que há muitos anos não tinha com meu pai. Não me lembrava mais de quando tinha vivido outro momento de intimidade entre pai e filho. Só nos restou o que tivemos na infância e foi tão bom! E só meu e dele.

Naquela noite, na minha viagem interior, percebi que era hora de perdoa-lo por todos os erros que ele cometeu.

Todo aquele sofrimento que ele estava passando na cama do hospital era uma espécie de pagamento mais que suficiente para suas decisões e escolhas que tomou na vida.

Era hora de me perdoar também, por todos os sentimentos negativos, por todas as atitudes de afronte, por toda a dor que passei, mas também que causei, pelo desapontamento e frustração que causei a alguém que sonhara um filho que jogasse futebol e que tivesse esposa e filhos.

Nesse momento entendi tudo e senti que estava tudo perdoado. Pedi a Deus que, se fosse melhor, que o libertasse também de seus sofrimentos.

É difícil descrever, mas meu coração se encheu de paz, de conforto e de luz. Quatro horas mais tarde o telefone toca e meu irmão me conta que meu pai foi descansar, foi fazer sua viagem.

Antes de ir, nos cruzamos em meu pensamento e pudemos nos libertar de tudo que vivemos e do que não vivemos juntos.

A você meu querido leitor, desejo que viaje pelo mundo, mas antes de tudo, viaje para dentro de si próprio!

As paisagens do começo podem não ser bonitas, mas no final, acredite, serão lindas como o céu azul e limpo sobre nossas cabeças ou como o oceano cristalino do mar do caribe. Boa viagem!

Eduardo Gregori é editor de turismo do Grupo RAC