Publicado 31 de Maio de 2015 - 5h00

Cena da série 'American Crime', com Felicity Huffman e Timothy Hutton

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Cena da série 'American Crime', com Felicity Huffman e Timothy Hutton

Russ Skokie (Timothy Hutton) é acordado no meio da noite por um telefonema da polícia. Eles o querem na cidade de Modesto, na Califórnia, para reconhecer um corpo. Dizem que é seu filho, assassinado horas antes — a nora está no hospital em estado grave. Ele, então, pega o primeiro avião para o local e, ao chegar lá, descobre que a polícia estava certa. Russ perdeu um de seus dois filhos. A cena seguinte, belíssima, é o pai desabando em prantos no banheiro da delegacia, uma ótima forma de dar o tom do que vem a seguir: uma trama pautada por relações amargas e pelo ódio racial.

'American Crime', que estreou na última terça no canal AXN — e vai ao sempre ar às 22h (dublados), com reprises à meia-noite (com áudio original e legenda) — é o tipo de série que parece ser mais do mesmo, mas que revela, aos poucos, conforme a trama vai se desenrolando, histórias difíceis, bem trabalhadas e, como não poderia ser diferente, baseadas numa realidade bem atual e que poucos querem ouvir falar. A produção não deve ser confundida com 'American Crime Story', série produzida por Ryan Murphy que trata de crimes reais da história americana, entre eles o caso do assassinato da mulher de O. J. Simpson.

Voltando à trama, a mãe do rapaz é Barb (Felicity Huffman, de 'Desperate Housewives'), ex-mulher que Russ abandonou quando os dois filhos eram pequenos, obrigando-a a criar os jovens em abrigos do governo. O talento de ambos é um grande trunfo de 'American Crime', principalmente Felicity no papel de uma mulher amarga, que sofreu muito na vida, e é abertamente racista. Barb acredita que seu filho, acusado de ser traficante, jamais seria capaz de fazer algo errado e afirma, sempre, que a culpa é dos hispânicos que invadiram a cidade de Modesto.

Paralelamente, acompanhamos os acontecimentos em outra família também destruída e que tenta, a qualquer custo, se recompor. O pai é um viúvo de origem latina e cria sozinho um casal de adolescentes. Rígido demais, porque sabe que o crime está nas redondezas, ele quer andar nos trilhos para ser aceito na sociedade americana, só que sofre um baque ao saber que o caçula pode ir preso por estar envolvido, mesmo que sem intenção, com o homicídio do filho de Barb e Russ. E, no meio disso, surgem outros personagens que são apresentados aos poucos, responsáveis principalmente pelos enredos de desafetos, mentiras e tensões raciais.

Criada por John Ridley (roteirista vencedor do Oscar por '12 anos de Escravidão') e Michael McDonald, a série, apesar de não ficar claro na première, contará a trajetória de cinco famílias que se cruzam por conta de, como dito, um assassinato.

Exatamente por isso, ela será narrada por diversos pontos de vista, a melhor forma para desenvolver situações de preconceitos e de diferenças de classe e opiniões.

O interessante é que, diferentemente de todas as outras produções que levam “crime” no nome, aqui a polícia fica em segundo plano, deixando com que os personagens envolvidos no assassinato revelem seus ideais, suas reivindicações, o ambiente em que vivem e o que esperam da sociedade, principalmente aquela que vive na difícil e tumultuada Modesto.

A série, já renovada pela ABC para uma segunda temporada, foi anunciada na semana de exibição do 11º e último episódio pelo diretor do canal, Paul Lee, como antológica – exatamente como 'American Horror Story' e 'True Detective'. Ou seja, o próximo ano, que irá ao ar apenas em 2016 nos Estados Unidos, trará uma história completamente diferente da que começa a ser exibida agora pelo AXN, situada inclusive em outra parte dos EUA.

O formato ajuda a atrair aquele público cansado de seriados com temporadas e histórias extensas. Por outro lado, precisa ter uma trama capaz de fidelizar o público em cada recomeço. Para isso, parte do elenco visto na primeira voltará para a segunda temporada, mas ainda não está definido quais atores estarão nos novos episódios – os protagonistas Timothy Hutton e Felicity Huffman são os únicos já acertados para voltar e interpretar personagens diferentes. Que bom, eles estão entre os principais motivos para se ver 'American Crime'.