Publicado 31 de Maio de 2015 - 5h00

Por Zeza Amaral

Colunista Zeza Amaral

Cedoc/RAC

Colunista Zeza Amaral

Vi o homem que carrega suas trouxas sujas nas costas, cheirando a mijo, a quem, ontem, dei uma marmita e uma garrafa de água. Agradecido, me desejou bom-dia e, é claro, afirmou que Deus me daria em dobro.

O Brasil é comandado por uma senhora presidente que bem desconhece esses seres que andam pelas ruas com as suas sacolas nas costas, uma gente que perdeu a noção da arte, da canção e a tudo o que se refere a valores morais, éticos e estéticos. Ela não se preocupou jamais com esses seres ignorantes, eternos e desesperados seres existenciais, brasileiros, sem eira e nem beira, sem latrinas e poços artesianos, e cujas vidas nos magoam existencialmente pois são parte da nossa paisagem urbana, dos nossos valores morais, religiosos, do nosso sofrimento bíblico - ou pelo menos à velha e decantada paisagem suburbana poética e necessária à Arte e à Política, segundo cantam valores de falsos vestais que compõem o nosso Congresso Federal - e aqui não digo sobre o Judiciário e o Executivo, visto que trato apenas de nós que somos cidadãos e contribuintes, desrespeitados quase e sempre por todos eles.

Sou agnóstico. Não entendo de Deus e tampouco de seus desígnios. Sei apenas que muitos homens comem os dejetos das calçadas, fumam bitucas que encontram no meio-fio da vida; esmolam migalhas de pequenas moedas; e que se entopem de pinga barata; e que resistem em nome de uma sobrevivência idiota, de um sempre seguir sem rumo, sem trabalho, alguns doidos da cabeça, e outros tantos por drogas baratas, dessas coisas que afastam dores e fantasias morais e sociológicas, suicídio lento e anônimo, uma cova qualquer, sem reza, apenas um número burocrático para compor e provar a despesa do município.

Viver é coisa perigosa. Vamos morrer, é claro. Viver é fazer um contrato com a morte. Mas viver com retidão é mérito de quem bem conhece as regras de ganhar um dinheiro para o pão de cada dia, a sopa de toda a noite, a deixá-la de herança para seus filhos, e, enfim, se deixar descansar às lembranças dos seus amigos, da companheira, filhos e, quiçá, de algum cunhado. Parentes são os dentes, diz a minha sogra à sabedoria de seus noventa e quatro anos. E devo dizer que mais conversei com ela do que com a minha mãe em quarenta anos de filho, ela que foi senhora de ventre aberto a oito filhos e sem coragem de sair à rua sem o acompanhamento de alguém da família. Minha mãe nunca andou de bonde sozinha. Nunca foi ao cinema sozinha. Nunca foi à feira sozinha. Mas bem feliz fiquei quando soube que ela morreu, sozinha, em santa morte, adormecida, em um sono profundo, sem dores e sem lembranças de deixar filhos entristecidos - e pela parte que me tocou, apenas dei-lhe um pequeno e apertado beijo no colo, agradecido pelas suas mamas, chinelos e aromas das coisas mágicas de cozinha; e lá se foi ela e o caixão.

A quem reclame da vida pela vida que leva. Quem reclama disso nunca leva em consideração os ensinamentos, esquece-os simplesmente, ou pela presunção de se achar senhor do mundo, dono da verdade e da mentira, ou dono de sua idiotice. Pobre ou bem de vida são todos os senhores de suas empáfias. O homem é fruto de suas escolhas morais e a elas prestará conta, dias ou mais dias, de suas decisões.

Dia desses, ouvi um andarilho cantando um velho samba de Noel Rosa, com que roupa eu vou, ao samba que você me convidou, envolto naquele cobertor flanelado, listrado, magro como a língua da madrugada. Não era o caso de espionar a vida cidade. Apenas liguei o meu radar da noite e desci a pé até chegar em casa. A moça que manda-em-mim estava fazendo um arroz integral e cozinhando couve-flor. Agradeço sempre aos deuses da Tarde e Madrugada, eles que sempre me conduzem aos braços da minha companheira, aos olhos caipiras dela, aos quadrantes da Mantiqueira. E infeliz é Deus que não tem alguém a lhe esperar. É isso. E mais não digo.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral