Publicado 04 de Maio de 2015 - 20h31

Por Agência Estado

O ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton Santos Avancini, e o ex-vice-presidente, Eduardo Hermelino Leite, réus da Operação Lava Jato, confirmaram nesta segunda-feira, 4, à Justiça Federal que a empreiteira pagava propina nas diretorias de Serviços e de Abastecimento da Petrobras. Ouvidos pela primeira vez pelo juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato, eles confirmaram o pagamento de R$ 110 milhões ao longo de seis anos nas duas áreas. Leite revelou que, na assinatura dos contratos, a empreiteira tinha que "sinalizar com aceitação" de acertos.

"Para a Diretoria de Serviços R$ 63 milhões e para a Diretoria de Abastecimento R$ 47 milhões", afirmou Leite, vice-presidente afastado da Camargo Corrêa Construções e Participações.

"Essa informação da área comercial, o número que se fala é entorno de R$ 110 milhões, que foram pagos pela Camargo de propina", informou Avancini ao juiz Sérgio Moro.

Perguntado pelo juiz Sérgio Moro - que conduz os processos da Lava Jato em primeira instância - quais motivos levavam a Camargo Corrêa a pagar a propina, Leite disse que havia um pacto assumido e que a empreiteira poderia ser prejudicada nos recebimentos.

"Primeiro porque isso havia sido pactuado", explicou Leite - que foi preso no dia 14 de novembro de 2014 e desde março cumpre prisão preventiva em regime domiciliar, após fazer acordo de delação premiada.

"Do ponto de vista da vantagem, eu diria que se não pagasse você teria muita dificuldade na gestão contratual com a Petrobras. Então era uma condição para você celebrar o contrato", explicou o executivo.

Leite é acusado de ser o principal contato do esquema de lavagem de dinheiro do doleiro Alberto Youssef - peça central da Lava Jato - e a Camargo Corrêa. Réu do processo envolvendo outros dois executivos da empreiteira, ele detalhou ao juiz como era feito os pagamentos.

Segundo ele, por conta dos projetos mal feitos havia necessidade de negociações de pagamentos imprevistos, que dependiam de aprovação da Petrobras.

"Você não paga na celebração, você paga depois, durante a obra. Mas você tinha que sinalizar a aceitação e depois, como os contratos e as obras tinham projetos muito ruins, foram contratadas com projetos básicos muitos ruins, a variação de preço no andamento da obra levava distorções significativas. E você tinha que discutir com os clientes essas distorções. Tinha algumas questões de aceitação do cliente sobre a interpretação de uma distorção", exemplificou.

Segundo Leite, uma greve prolongada no decorrer das obras era um tipo de custo imprevisto que necessitava de negociação entre a empreiteira e a Petrobrás para que fosse liberados pagamentos que cobrissem esse prejuízo.

Confirmação

Leite e Avancini confirmaram formalmente o esquema de cartel, corrupção e propina na Petrobras. Segundo os processos da Lava Jato, PT, PMDB e PP dividiam as indicações políticas nas diretorias da estatal, para arrecadar de 1% a 5% de propina nos contratos com empresas do cartel.

Leite e Avancini fizeram acordo de delação premiada com os investigadores da Lava Jato, em março. Foram ouvidos e receberam o direito a cumprir prisão preventiva em regime domiciliar, por conta do acordo.

Nas delações, Leite já havia apontado o recebimento dos R$ 110 milhões em propinas pelos ex-diretores de Renato Duque (Serviços) e Paulo Roberto Costa (Abastecimento). Leite voltou à afirmar nesta segunda-feira, diante do juiz Sérgio Moro, que os dois ex-diretores da Petrobras - já denunciados criminalmente - eram indicações do PT e do PP, no esquema de corrupção na estatal.

Doação eleitoral

Eduardo Leite afirmou ainda que "por volta de 2010" foi procurado pelo então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e que durante uma reunião sugeriu a ele se "não desejava fazer repasse direto (de propinas) para o PT em forma de doação eleitoral". Leite, réu da Operação Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro, confirmou os termos de seu depoimento à força tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, realizado em março.

"Em determinada ocasião, por volta de 2010, fui procurado pelo João Vaccari, tesoureiro do PT, que me chamou para um encontro. Ele me informou que tinha ciência de que a Camargo Corrêa estava atrasada para pagamentos (de propinas) na área de Serviços (da Petrobrás, unidade dirigida pelo engenheiro Renato Duque, indicado pelo PT). Ele disse que a área de Serviços tinha obrigação de pagar para o Partido dos Trabalhadores e se eu não desejava fazer o repasse direto ao partido em forma de doação eleitoral."

"Levei (a sugestão de Vaccari) para nossa área (na Camargo Corrêa) responsável por doação, não teve andamento", declarou Eduardo Leite, que está preso em regime domiciliar desde que fez delação premiada, sob monitoramento de tornozeleira eletrônica. Ele disse que "a gente sabia que o Renato Duque era indicação do PT".

"A propina dentro da Camargo Corrêa era um custo para a questão Petrobras", declarou o empresário. "Eu tinha um custo que representava 1% do contrato. Era custo e a empresa estava passando por uma situação desgastante que foi uma operação anterior, fez com que a empresa mudasse alguns procedimentos", disse, em referência à Castelo de Areia, emblemática operação deflagrada pela Polícia Federal em 2009.

Ele disse acreditar que os acionistas não tinham conhecimento das propinas. "Em nenhum momento, da minha parte, tratei com acionistas."

O empresário admitiu que recebeu R$ 500 mil do doleiro Alberto Youssef, peça central da Lava Jato. "O sr. Youssef era um cobrador costumaz, tinha uma capacidade de cobrança muito forte. Ele tinha muita criatividade, ela trazia várias soluções para viabilizar pagamentos e muitas dessas soluções por nós foram reprovadas. Em alguns momentos, eu disse a ele que havia um impedimento para fazer pagamento. Ele dizia: ‘Pô, eu trago a solução e você não quer, então estou chegando à conclusão que você não quer me pagar’."

Eduardo Leite declarou que nas obras das refinarias da Repar e da Abreu e Lima "houve um período similar de acumulação de repasses". Ele disse que não fazia interlocução com políticos. "Quem fazia eram esses operadores, eu sei que representavam o PP (Partido Progressista) porque ouvia falar. Acho que ouvi do próprio Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobras) uma vez."

Indagado se além da Camargo Corrêa outras empreiteiras pagavam propinas, ele esclareceu que nas reuniões "isso era falado". Quem comentou?, perguntou o juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato. "Por exemplo, o Márcio Farias, da Odebrecht, comentou, o Ricardo Pessoa, da UTC comentou, todo mundo tinha um desconforto até em comentar, embora chegue um momento que acha normal, havia esse desconforto. Um por cento sobre contrato de R$ 3 bilhões, por exemplo ,é significativo."

 

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