Publicado 06 de Maio de 2015 - 8h34

Por France Press

Um tribunal afegão condenou nesta quarta-feira (6) quatro homens à morte por enforcamento pelo linchamento, em março em Cabul, de uma mulher acusada equivocadamente de ter queimado um exemplar do Corão.

Em 19 de março, Farkhunda, de 27 anos, foi agredida até a morte, depois queimada e jogada em um rio em Cabul por uma multidão furiosa que a acusava de ter profanado o livro sagrado do islã.

A morte provocou muitos protestos no Afeganistão e o caixão da jovem foi carregado até o cemitério por mulheres, algo muito raro no país.

A tragédia, que tanto o presidente Ashraf Ghani como os talibãs condenaram, também provocou protestos em países da Europa.

Menos de dois meses depois, os juízes do tribunal de primeira instância de crimes contra a segurança nacional decidiram por unanimidade a condenação de quatro homens à pena capital pelo assassinato, anunciou o juiz Safiullah Moyadidi.

Entre os condenados à morte está um autoproclamado mulá que vendia amuletos perto de uma mesquita e que provocou as agressões contra a jovem.

A investigação revelou que Farkhunda não havia queimado o Corão. Na realidade, havia denunciado que as atividades do vendedor de amuletos eram contrárias ao islã.

Irritado, o vendedor a acusou de blasfêmia e mobilizou uma multidão para linchar a jovem. Vários policiais assistiram sem impedir a cena, amplamente divulgada nas redes sociais com vídeos e fotos.

O crime resultou na criação do movimento "Justiça por Farkhunda" para denunciar a violência contra as mulheres, mas também o charlatanismo e a ignorância que provocaram a tragédia.

O tribunal de primeira instância também condenou oito homens a 16 anos de prisão e inocentou outros 18, por falta de provas.

Pouco depois do anúncio do veredicto, Muyibullah, irmão de Farkhunda, expressou sua decepção com as penas.

"Milhares de pessoas estavam envolvidas no assassinato da minha irmã e o tribunal só condenou quatro. Queremos que tribunal revise a decisão e julgue mais pessoas envolvidas", disse.

Heather Barr, da organização Human Rights Watch (HRW), questionou a imparcialidade do processo.

"Pronunciar um veredicto contra 30 indiciados por acusações tão graves em um processo de três dias provoca sérias dúvidas a respeito da imparcialidade", declarou à AFP.

O tribunal julgou 49 pessoas pelo crime. Os réus foram indiciados por acusações que iam de participação em atos violentos até assassinato. Além dos 30 que ouviram a sentença nesta quarta-feira, o tribunal deve anunciar a sentença de 19 policiais no próximo domingo.

Os pais de Farkhunda, que estavam no tribunal, afirmaram antes do veredicto que desejavam justiça e que os "criminosos que mataram uma jovem mulher educada fossem castigados".

Em um relatório divulgado em abril, a ONU destacou que o acesso à justiça para as mulheres precisa ser reforçado no Afeganistão. O documento calcula que apenas 5% dos casos nos quais os autores são identificados resultam em processos e condenações judiciais.

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