Publicado 06 de Maio de 2015 - 5h00

Por Marita Siqueira

Marcos Suzano, Guilherme Gê, Kátia B e Luís Filipe de Lima formam o grupo Coletivo Samba Noir

Daryan Dornelles

Marcos Suzano, Guilherme Gê, Kátia B e Luís Filipe de Lima formam o grupo Coletivo Samba Noir

Amores terminados ou nunca vividos, a morte que se aproxima, o assassinato da prostituta, a mulher que trai sem piedade, o marido que mata por vingança, o bêbado solitário em busca de um romance fortuito pela madrugada. Temas como esses foram transformados em lindas canções de fossa por Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Cartola, Noel Rosa e outros grandes compositores da música popular brasileira. O Coletivo Samba Noir reuniu dez dessas músicas “dor de cotovelo” no disco homônimo recém-lançado, dando a elas um toque contemporâneo, como a inserção de instrumentos eletrônicos.

Os novos arranjos empregados nas canções no disco sugerem, definitivamente, outro cenário para a fossa. Sonoridades eletrônicas e a linha do baixo executada no teclado foram inseridas, subvertendo a harmonia, mas ao mesmo tempo preservando o conteúdo dramático e o peso das letras. 'Luz Negra', de Nelson Cavaquinho, 'Risque', de Ary Barroso, 'Autonomia', de Cartola, 'Volta' e 'Aves Daninhas', de Lupicínio, e 'Para que Mentir', de Noel, são algumas das faixas do álbum, que faz parte de um projeto do coletivo que engloba turnê de 15 shows, valendo-se de linguagem cênica inspirada no cinema noir (subgênero de filme policial cunhado na França).

Resultado

“O público que tem ido aos shows é jovem, muitos atraídos pelos artistas que estão no palco, que também são novos. Mas, o repertório atrai pessoas que querem ouvir um Lupicínio, um Tito Madi, mas quando chegam lá acabam se assustando positivamente porque no show tem uma moldura visual incrível. É um cenário vivo, do qual nós fazemos parte”, conta o experiente percussionista Marcos Suzano, um dos mais respeitados do País.

O músico conta que o quarteto formado por ele, Kátia B (cantora, atriz e bailarina), Luís Filipe de Lima (violonista e produtor musical) e Guilherme Gê (tecladista e cantor) entra numa “caixa” com uma espécie de tule escuro esticado nas laterais, com fundo preto, e os quatro convidados do disco — o multi-instrumentista e compositor Egberto Gismonti, o cantor e compositor Jards Macalé, o cantor e compositor norte-americano Arto Lindsay e o flautista e saxofonista Carlos Malta — aparecem em projeções de imagem e som.

Repertório

Quanto ao repertório, escolhido por Kátia e Luís Filipe, Suzano revela que a intenção era a de realmente desconstruir aquela sonoridade conhecida. “De partida, a ideia era de fazer um som que não tivesse ligação com o tradicional daquelas músicas. Primeiro porque as melodias são muito fortes e, por si, só sustentam qualquer tipo de interpretação. E, quando começamos a tocar, experimentei alguns sons meus para dar uma cara noir, filtrada, mais escura, e o Guilherme Gê usou aqueles baixos gerados a partir do sintetizador. Isso libertou o violão, deixando-o mais cristalino, ele aparece bem e é a única coisa, digamos assim, rústica. O resto foi trabalhado nos timbres para ficar com uma cara diferente. Ritmicamente, algumas vezes que a gente radicalizou”, diz.

O disco levanta uma questão quase filosófica. Será que os sofrimentos não são curtidos na solidão, embebidos pelos destilados, no quarto escuro ou na mesa dos fundos da boate como na origem de tais compositores?

Talvez não, e o trabalho do coletivo abre isso para discussões. O disco atrai pelo experimentalismo. As — belas — canções regravadas têm sua excelência na originalidade, e quem não “desapegar”, terá dificuldades em enxergar a qualidade das versões. Trata-se de uma fossa na balada de hoje, com suas luzes e tecnologias de som.

O Coletivo Samba Noir nasceu de um dos projetos contemplados pela seleção pública da Petrobras Cultura, em 2014. Se estende até o final deste ano e um novo disco está em processo, seguindo a mesma linha, desta vez sem o patrocínio.

Escrito por:

Marita Siqueira