Publicado 26 de Março de 2015 - 12h22

Por Delminda Aparecida Medeiros

Fórum discute gestão e papel social das orquestras

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Um patrimônio cultural reconhecido e incensado pela população, as orquestras sinfônicas enfrentam continuamente o desafio de manter o nível de excelência que as caracterizam, ter estrutura adequada para suas atividades, apresentar concertos sinfônicos, cumprir seu papel social de formar músicos e plateia, além de chegar ao grande público. O papel das orquestras sinfônicas e a educação musical na sociedade foram o centro das reflexões do fórum Gestão Orquestral e Compromisso Social, realizado esta semana na Unicamp e que reuniu importantes maestros e gestores brasileiros.

Um dos principais pontos levantados pelos participantes refere-se ao valor elevado para se manter uma orquestra sinfônica. “Em função do custo altíssimo, há um movimento no sentido de termos poucas orquestras profissionais, que são caras, e um conjunto de pequenas orquestras. A tendência é ter cada vez menos orquestras profissionais e aumentar o volume de semiprofissionais e amadoras”, aponta o secretário de Cultura e professor do departamento de música da Unicamp, Ney Carrasco. “Esta é uma tendência, mas o problema é que os músicos não querem ser classificados como semiprofissionais ou amadores”, coloca o regente titular da Orquestra Sinfônica de Franca, Nazir Bittar.

Para Cinthia Alireti, regente da Sinfônica da Unicamp e curadora do fórum, o custo é um fator importante, mas há outros pontos, como a criatividade para saber enfrentar crises, gerenciar a orquestra, os músicos e obter resultados. “A orquestra tem um compromisso com o público, tem que saber como contribuir para a melhoria social”, afirma.

Segundo Cinthia, nos últimos anos, o papel das orquestras sinfônicas no Brasil tem se reciclado rapidamente, assumindo diferentes funções dentro da sociedade. “Primeiramente, constata-se o aumento da profissionalização de músicos e gestores da área artística, o que resulta numa melhoria da qualidade dos eventos. Além desses fatores, as instituições sinfônicas têm se mostrado cada vez mais ativas no desenvolvimento de programas educativos e sociais”, observa, lembrando ainda a importância da integração da música contemporânea no repertório de concerto, com divulgação e criação de estratégias de formação de público para tal gênero.

O maestro Lutero Rodrigues, que já regeu diversas orquestras e hoje é professor do departamento de música da Universidade São Paulo (Unesp), avalia que o custo não é o foco principal dos desafios das orquestras. “Tem tantas coisas muito caras que as pessoas compram. O que nos falta é perceber socialmente que orquestras têm valor, são essenciais. E cabe às orquestras se fazerem essenciais, ai não vão se tornar caras. O desafio é a orquestra exercer uma atividade que se torne necessária em seu meio”, aponta. O maestro Jamil Maluf, criador da Orquestra Experimental de Repertório, ganhador de diversos prêmios na área e regente titular da Orquestra Sinfônica de Piracicaba, concorda que a orquestra tem que estar inserida na comunidade para ganhar respeito e visibilidade. “A orquestra não se insere na comunidade por causa do assessor de imprensa, ou de amizade com jornalistas do setor. Se insere na medida em que responde à expectativa da sociedade”, afirma, citando que é preciso criar vínculos com as várias linguagens – teatro, cinema, música popular – para a orquestra ser aceita pela comunidade.

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O Fórum foi organizado pelo Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural da Unicamp (Ciddic) e Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), com curadoria de Cinthia Alireti, regente da OSU e Nicole Somera, do Ciddic/OSU. (DM/AAN)

Fórum

Além da exposição de modelos da Orquestra Sinfônica da Universidade São Paulo (Osusp), Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo e da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, de Porto Alegre, foram realizadas três mesas redondas: Projetos Sociais e Educação Musical, moderada por Cinthia Alireti e com a participação de Ney Carrasco, Adriana Schincariol, coordenadora pedagógica da Emesp; e Edson Leite, diretor da Osusp. A segunda foi Formação de Público e Difusão da Música Contemporânea, moderada por Denise Garcia, compositora e diretora do Ciddic, tendo como debatedores o compositor e professor da ECA/USP Silvio Ferraz, o maestro Antônio Borges-Cunha, diretor artístico e regente titular da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro; e o compositor e diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, Leonardo Martinelli. Programação de Temporadas Artísticas foi o tema da terceira mesa, que teve como moderador o maestro Parcival Módolo, regente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Os debatedores foram os maestros Victor Hugo Toro, da Sinfônical de Campinas, Lutero Rodrigues, regente da Orquestra Acadêmica da Unesp, Abel Rocha, maestro da Orquestra Sinfônica de Santo André; e o convidado especial Jamil Maluf, fundador da Orquestra Experimental de Repertório e regente da Orquestra Sinfônica de Piracicaba. (DM/AAN)

Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas

Comparada com a situação de outras orquestras, como as ligadas às universidades que ficam atreladas aos problemas administrativos e financeiros das instituições, a Sinfônica de Campinas vive atualmente um momento de calma e retomada da categoria de excelência que já desfrutou no cenário nacional. O regente titular, Victor Hugo Toro, lembra que assumiu a Orquestra preparando o Concerto de Natal de 2011, visto por 5 mil pessoas. “Mas dois meses depois começou a crise política na cidade. Em um ano houve a cassação de cinco prefeitos, seis secretários e diretores de Cultura, o fechamento do Centro de Convivência Cultural, então casa da Sinfônica, entre outros imprevistos. Foi um ano difícil, mas agora as coisas estão se estabilizando”, aponta.

Segundo Toro, o orçamento da Sinfônica para este ano é de R$ 8 milhões, dentro da dotação orçamentária da Prefeitura para manutenção e folha de pagamento. “E temos mais cerca de R$ 1 milhão para contratação de maestros e solistas convidados, aporte da prefeitura e de patrocinadores, para uma média de 70 apresentações anuais, entre concertos oficiais, didáticos, em igrejas, cidades da região metropolitana e eventos especiais.”

Segundo Toro, a maior dificuldade da OSMC não se refere a recursos. “Temos uma situação privilegiada, consolidada com o apoio da Prefeitura e reconhecimento e carinho da população. A dificuldade, é equilibrar as questões próprias da estrutura sinfônica com as da administração pública”, coloca, citando que a questão de espaço adequado é pontual, já que há projetos de construção do teatro de ópera e de reforma do Convivência. “O maior desafio é equilibrar todos os interesses, projetos, propostas, tudo que queremos fazer em um ano.” A OSMC tem, por lei municipal, vaga para 119 músicos e atualmente conta com 83.

Sobre o orçamento, que pode parecer alto, Toro usa como referência o custo do prolongamento de uma rodovia. “O orçamento anual da Orquestra equivale a 300 metros do prolongamento do anel viário Magalhães Teixeira.” Considerando que Campinas tem em torno de 1,2 milhão de habitantes, se o custo da Sinfônica fosse dividido entre todos os habitantes, o valor para cada campineiro seria em torno de R$ 8,00, o preço de uma cerveja em bares. (DM/AAN)

Orquestra Sinfônica da Unicamp

A OSU, que atualmente conta com 45 músicos, tem alguns desafios pela frente, mas conta com a retaguarda da Unicamp no que se refere à folha de pagamento da equipe. “A Unicamp assume a folha, mas não temos orçamento. Este ano estamos trabalhando com os recursos que o reitor nos destinou no fim do ano passado. Mas sem um valor pré-estabelecido. Dependemos de negociações a cada temporada”, diz Denise Garcia, diretora do Ciddic. Ela cita que a sala de ensaios passou recentemente por adequação acústica, mas a OSU não tem um teatro para se apresentar. A maestrina Cinthia Alireti também avalia que a questão do custo pesa tanto quanto outras, como da criatividade sobre como gerenciar a Orquestra, os músicos, garantir o resultado final e o compromisso com o público, de contribuição para a melhoria social. “As orquestras universitárias têm um papel importante, têm liberdade artística para pesquisar, a possibilidade de buscar repertórios diferenciados, sem obrigação comercial”, afirma. Cinthia destaca que a OSU não se restringe ao mundo acadêmico. “Seu compromisso é com a Unicamp, mas também com o público de Campinas e região, no sentido de divulgar essa arte a contribuir para a formação de plateias. (DM/AAN)

Carreira internacional

Nascido em Santiago do Chile e graduado pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, o diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas desde o final de 2011, o maestro Victor Hugo Toro tem sido chamado a reger as mais importantes orquestras da América Latina. Foi regente titular da Sinfônica de Sodre e há alguns anos é maestro convidado da Filarmônica de Montevidéu, ambas no Uruguai. Mas este ano, sua atuação internacional extrapola os limites latinoamericanos. Toro embarca hoje para a China para reger a Orquestra Filarmônica de Xiamen num programa que apresenta o Concerto para piano n° 1, de Brahms, e uma segunda parte latinoamericana, com obras do Chile (Tres Aires Chilenos, do compositor Enrique Soro), Brasil (Bachianas n° 4 de Villa-Lobos) e Argentina (Suite Estâncias, de Alberto Ginastera).

Em maio, o maestro desembarca na Itália, para um concerto com a Filarmônica de Verona, com programa ainda a definir. “Nos primeiros dias de junho vou reger a Filarmônica de Montevidéu no Teatro Solis, com solo da famosa soprano finlandesa Susanna Levonen, num programa com obras de Wagner e Luciano Berio”, adianta. Em outubro, Toro estreia no Teatro Colon, regendo um concerto com a Filarmônica de Buenos Aires, num programa Báltico, com obras de Grieg, Nielsen e Sibelius, respectivamente da Noruega, Dinamarca e Finlândia. “Além disso tenho compromissos com algumas orquestras brasileiras e, naturalmente, minhas apresentações como maestro da Sinfônica de Campinas, regendo programas muito instigantes e interessantes durante a temporada 2015.” (DM/AAN)

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros