Publicado 23 de Março de 2015 - 15h05

Por Delminda Aparecida Medeiros

Obs: lembrar de colocar o selo de vídeo feito pela Dominique. fotos e vídeo feitos dia 9/3

Papo C – Mariano Lopez

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Graduado em psicologia, com especialização em criminologia e atuando com crianças e adolescentes na prevenção a suicídio , problema recorrente em Montreal, Canadá, onde vive há 15 anos, o argentino Mariano Lopez sentiu que a palavra era insuficiente para jovens, especialmente crianças vulneráveis, se expressarem. E decidiu se valer da arte como ferramenta de transformação social. “O que não expressam em palavras, conseguem fazer pela atividade artística”, afirma. Lopez procurou o Cirque du Soleil e passou a trabalhar no projeto Cirque du Monde, braço social da trupe franco-canadense, na capacitação de educadores para atuar com crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social pelo mundo afora. De passagem por Campinas para o Encontro Anual da Rede Circo do Mundo Brasil, organização orientada pelo Cirque du Monde, ele conversou com o Caderno C sobre a experiência de usar a arte circense como instrumento de inclusão.

Correio Popular: Você é bacharel em psicologia e criminologia. Como se envolveu com o projeto social do Cirque du Soleil?

Mariano Lopez: Eu trabalhei 20 anos com psico-educação, interação com jovens que vivem em situação de ruptura social e com pessoas com problemas de saúde mental. E com todos havia um limite para ajudar na maneira de interagir pela palavra. Eu buscava uma maneira mais alternativa de chegar às crianças que não sabem expressar seus sentimentos pela fala. O circo apareceu no meu caminho em 2007 em Montreal. O projeto Circo do Mundo combinava o circo com uma maneira de inserir esses jovens em situação de ruptura social. Pensei: “é isso que vou fazer”.

Você já tinha experiência com circo?

Nenhuma. Tinha experiência no trabalho com jovens vulneráveis, mas não com circo. A arte circense eu descobri com o Cirque du Soleil, mas não como artista, como psicólogo.

Qual o foco principal do projeto Circo do Mundo?

Minha função é de formador. Capacito artistas para desenvolver trabalhos sociais que implicam em utilizar o circo como uma maneira de intervenção. Meu papel no Cirque du Soleil é como parte de uma equipe de formadores que viaja pelo mundo, preparando artistas e trabalhadores sociais para a intervenção com os jovens.

Então você não trabalha diretamente com as crianças, mas com o educador?

Exatamente, venho fazendo isso nos últimos oito anos, desde 2007. São 40 formações diferentes em 15, 20 países. Fico pouco tempo em Montreal, trabalho viajando pelo Brasil, México, Mongólia, África do Sul.

E como essa atividade circense interfere na vida da criança?

Depende do projeto. Primeiramente o objetivo é trabalhar com os jovens em situação de risco, de ruptura social, propondo um espaço seguro, criativo, diferente, que permite à criança aprender a arte circense e ao mesmo tempo despertar suas habilidades sociais. A meta não é formar profissionais, apesar de que isso acontece, mas incluir esses jovens na sociedade.

Como você vê esse trabalho aqui no Brasil?

O Brasil tem uma situação muito particular, porque representa um exemplo para muitos projetos de circo social no mundo. Aqui esse trabalho social existe há muitos anos, desde a criação da Rede Circo do Mundo Brasil (em 2000), e há uma reflexão importante e avançada nesse aspecto social. Outra particularidade do circo social no Brasil é que muitos educadores são formados no projeto, crianças que começaram sendo atendidos e se converteram em instrutores do projeto. No Brasil, o educador vivencia as duas situações. Há um desenvolvimento muito grande no trabalho desde a criação da rede. Outro elemento interessante é que o educador tem dois papéis: é o instrutor de técnicas de circo e atua também com a educação da criança no aspecto social, da autoestima, da capacidade de se comunicar, de ajudar, de resolver conflitos de maneira não violenta. O formador tem a responsabilidade não só de ensinar o malabarismo, a acrobacia, a fazer pirâmides, mas também de promover o mais importante, que é esse arranjo humano. Em outras partes do mundo temos o psicólogo e o artista circense, trabalhando juntos. O Brasil tem esses jovens que vieram do projeto, conhecem bem o conceito do circo social porque passaram e foram formados por ele. Isso se torna um modelo para as crianças. E o nível técnico artístico é muito bom.

Você tem uma estimativa de quantas crianças o projeto atende ou já atendeu?

Não sei os dados do Brasil. No mundo, desde que iniciamos essa formação estimo que em torno de 500 mil jovens passaram pelo circo social, muita gente já foi beneficiada com este projeto. No mundo há pelo menos 400 diferentes projetos de circo social, tornou-se um movimento, do qual o Brasil faz parte. As estruturas formais, convencionais como as escolas, muitas vezes não funcionam com o tipo de crianças que atendemos, em situação de rua, sem família, vítimas de violência. Com o projeto, através do mundo há um movimento no sentido de utilizar o circo para se conectar com essas crianças e dar um valor a essa marginalidade. A proposta é dar a elas um espaço de seguridade para que possam ser crianças. Isso é algo que cada vez mais funciona, comprovado por pesquisas ao redor do mundo. Há também mais escolas formais que utilizam as artes circenses dentro das atividades físicas, porque no circo se pode também desenvolver ações cognitivas, psicomotriz. Há muitas coisas que se pode fazer com as técnicas circenses, inclusive estimular o trabalho em equipe.

Como no caso da pirâmide?

Exatamente, este é um bom exemplo de trabalho em equipe. Com as pirâmides se trabalha, ao mesmo tempo, a confiança, a responsabilidade, a força física. Os responsáveis pelos colégios se deram conta de que o circo tem um resultado muito mais efetivo que somente a educação física. Ela é uma parte, mas que pode ser associada com as técnicas circenses e com os jogos. O jogo é muito importante, dá espaço para crianças serem crianças. Em situação de ruptura, muitos já trabalham com 8 anos e aos 12 são adultos. No circo social, trabalhamos no sentido de permitir que sejam crianças, que joguem, aproveitem o lúdico. Depois até podem trabalhar, mas preservando o lado criança.

Como se dão esses encontros anuais com apoio do Circo do Mundo?

Há 15 anos é feito esse trabalho. Eu particularmente estou desde 2007 formando instrutores. No Brasil há pessoas muito experientes nesse trabalho em São Paulo, Pernambuco, Londrina, Rio de Janeiro. Todos esses instrutores foram formados com apoio do Cirque du Monde e hoje são pessoas com grande experiência em circo social. Nós preparamos esses instrutores para que eles formem seus grupos e sejam independentes. O Cirque du Soleil continua a colaborar, mas a proposta é que os grupos tenham capacidade de eles mesmos prepararem novos formadores. A Rede Circo do Mundo Brasil está formando formadores. Esses encontros ajudam a fornecer material e conhecimento para os grupos continuarem o projeto e compartilharem o que sabem.

No Brasil a rede já está em condições de se manter sozinha?

Completamente. Há uns três anos eles se mostram com nível técnico e capacidade para preparar novos formadores, estão amadurecidos para pode formar.

Você passou um tempo acompanhando uma equipe num barco pela Antártida. Como foi essa experiência? Foi antes de você entrar para o circo?

Isso mesmo, foi por conta dessa experiência que estou no circo. Eu trabalhava com um programa de prevenção de suicídio em Montreal. Lá esse problema é muito grande. Trabalhamos uns seis anos para entender porque tanta gente queria morrer. Em meio a isso surgiu uma proposta de ir num barco de Montreal até a Antártida, para filmar um documentário sobre as mudanças climáticas na Península Antártica. Eu, como psicólogo, estava responsável pela saúde mental da equipe. Foi um ano viajando com 13 pessoas num barco, sem poder sair. E quando estava há uns oito meses, disse: “se eu termino essa experiência bem, posso fazer qualquer coisa que queira”. E pensei que queria jogar, aprender a utilizar o movimento em outras artes para ajudar as pessoas, não usando apenas a palavra. A palavra é muito redutora, especialmente com as crianças que não podem se expressar. Na terapia muitos não conseguem se expressar. Já o circo é um lugar magnífico para explorar, em que as crianças se colocam de outras formas. Escrevi do barco, me apresentando ao Cirque du Soleil, dizendo que gostaria de colaborar com eles. Expliquei que tinha muita experiência em intervenção psicológica com crianças e adolescentes, mas não conhecia nada de circo. Me responderam para procurá-los quando voltasse da viagem. De cara, o Soleil me mandou ao México para ver as oficinas do circo social. No primeiro dia vi os instrutores, os jovens e pensei que era o que queria fazer: buscar uma maneira alternativa e marginal para ajudar os jovens e não obrigá-los a entrar na estrutura clássica da ajuda. O circo permite utilizar a música, a dança, a força física, a acrobacia, o teatro, a preparação de espaço, sempre tem lugar para ajudar a criança.

Há um leque amplo de opções?

Sim. Em Los Angeles, nos Estados Unidos, as crianças são obesas, chegam a pesar 150 quilos. Elas não podem fazer trapézio, mas podem fazer malabares, colocar a música, montar o cenário. Pode-se usar a criatividade para encontrar uma maneira de se conectar com a criança e não obrigar a criança a adaptar-se ao modo de intervenção clássica. O que mais gosto é encontrar grupos que tenham experiências que eu possa compartilhar. Não de como fazer a técnica de circo, mas como usar essa técnica para conectar-se com a criança, aproveitar a mágica do circo. Com os artistas há um contato privilegiado.

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros