Publicado 27 de Março de 2015 - 5h30

O Banco Central escancarou ontem pela primeira vez com números o que os agentes econômicos já sabiam há algum tempo: a inflação de 2015 vai estourar o teto da meta. A projeção é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche este ano em 7,9%, bem acima do limite máximo determinado, de 6,5%. O pior é que a chance de isso ser concretizado, pelos próprios cálculos do BC, é de 90%. A inflação deste ano, portanto, deve ser a maior em 12 anos.Dado o cenário perdido para o combate à alta dos preços em 2015, não resta outra saída à autoridade monetária se não mirar para o ano seguinte. A promessa de entregar o IPCA na meta de 4,5% foi repetida ontem, a despeito de ainda haver uma incredibilidade no mercado financeiro a respeito de seu cumprimento. “É um dever que temos com a sociedade brasileira”, garantiu o diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Awazu Pereira da Silva.Pelos cálculos do BC, a taxa de 2016 ficará em 4,9%, mas Awazu admitiu não estar satisfeito com essa projeção. “Estamos com política monetária que é vigilante, está vigilante e se manterá vigilante para esse objetivo (atingir 4,5% de IPCA)”, declarou.Segundo ele, essa postura do BC é a principal mensagem a ser passada no Relatório Trimestral de Inflação divulgado ontem. O curioso é que a expressão, que constava na edição de dezembro, foi retirada do documento atual e só foi comentada na entrevista do diretor para explicar as novas projeções.O mercado viu no documento um BC “mais suave” nas suas projeções. Os analistas do setor privado acreditam que o índice do ano que vem será de 5,6%, bem mais alta do que a do BC. O grande trabalho da instituição agora é domar as expectativas, que também são fonte importante de pressão sobre os preços. A avaliação é a de que, apesar de já mostrarem alguma redução no médio prazo, as estimativas ainda não baixaram o suficiente. “Temos reiterado que o papel da política monetária é circunscrever os efeitos para 2015 e impedir que extrapolem para 2016.”Dolar alto

Para a diretoria do BC, o dólar alto muda vários pontos da economia, mas não chegará a ser um problema tão grande para a inflação, apesar de já ser constatado um realinhamento de preços domésticos em relação aos externos, porque o repasse da alta dólar tem sido menor. Contestada por agentes do setor privado, este é o mais recente dogma que o BC quer passar. Tanto que deu ênfase ao tema, tratando-o de forma isolada no relatório.O BC elevou para R$ 3,15 a taxa de câmbio usada como parâmetro para as projeções de inflação no Relatório Trimestral de Inflação (RTI). O BC levou em consideração a data de 13 de março como corte para confeccionar o relatório divulgado ontem, pela instituição. Nesse dia, porém, a cotação do dólar fechou em R$ 3,26. O valor é maior que os R$ 2,85 da última ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e que causou surpresa pela distância em relação do valor do dólar negociado no dia do encontro da diretoria colegiada, de R$ 2,9790. O BC optou por trabalhar com um dólar defasado ao tomar a decisão de elevar a taxa Selic de 12,25% ao ano para 12,75% ao ano. Vale ressaltar que aquele foi o último dia que a moeda americana encerrou os negócios no Brasil comercializada abaixo de R$ 3,00. O dólar para abril, no dia da reunião do BC, fechou a R$ 3,0020. No RTI de dezembro, a cotação usada pelo BC era de R$ 2,55.O cenário favorável dos preços das commodities, na avaliação do Banco Central, deve reduzir à metade o repasse cambial, ajudando a tarefa do BC na convergência do IPCA para o centro da meta em 2016.O documento não traz números, mas o presidente do BC, Alexandre Tombini, disse esta semana que essa contaminação é de 5% a 10%.Awazu não admitiu que o BC deve fracassar em sua única missão este ano, a de entregar a inflação na meta. O certo é que, se isso ocorrer, conforme tudo indica, Tombini terá de escrever uma carta ao Ministério da Fazenda explicando o que deu errado e traçando os próximos passos para colocar as rédeas nos preços novamente. Isso não acontece desde 2004. “Nós, da equipe do BC, trabalhamos 200% para isso: 24 horas por dia, sete dias por semana e 365 dias por ano para atingir esse objetivo.”Selic

Atualmente em 12,75% ao ano, a Selic deve continuar a subir na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de abril, segundo analistas do mercado financeiro que leram o documento. A dúvida é em relação não apenas o próximo passo do BC sobre o rumo dos juros — se o aumento será de 0,25 ponto porcentual ou de 0,50 pp —, mas também sobre a extensão desse ciclo, já que, embora tenha demonstrado que a inflação está alta este ano, mantém um prognóstico considerado ainda otimista para 2016. (Da Agência Estado)

Fipe reduz a projeção para IPC de março

A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) reduziu de 0,76% para 0,74%, a projeção para a inflação de março na cidade de São Paulo. A informação foi divulgada ontem, à reportagem, pelo gerente técnico de Pesquisas do IPC, Moacir Mokem Yabiku, para quem o motivo principal da revisão para baixo foi a surpresa que o instituto teve com o resultado anunciado na terceira quadrissemana do mês.

Ontem, a Fipe anunciou que o IPC apresentou taxa de inflação de 0,78% na terceira leitura de março ante alta de 0,96% na segunda medição do mês. O resultado veio abaixo da expectativa do instituto, que era de uma inflação de 0,84%. Também ficou menor que o intervalo de previsões dos analistas do mercado financeiro, que, no levantamento do AE Projeções, esperavam taxa de 0,80% a 0,96%, com mediana de 0,89%. Para Yabiku, o comportamento dos preços do etanol, da gasolina e das carnes bovinas foram decisivos para a surpresa com o resultado da terceira quadrissemana. No período, o etanol apresentou alta de 1,69%, bem menor que a da segunda medição, de 3,41%. O mesmo aconteceu com o combustível derivado do petróleo, cuja elevação passou de 3,69% para 2,04%. A carne bovina, por sua vez, ampliou a queda, de 0,66% na segunda quadrissemana para 1,85% na terceira medição. Para o fim de março, a Fipe projetou variação positiva de 1,25% novamente para a Habitação. Para a Alimentação, previu elevação de 0,82%. (AE)