Publicado 01 de Março de 2015 - 5h30

O escândalo da Petrobras deveria servir, no mínimo, para provocar uma séria reflexão sobre as estatais.

De minha parte, e por experiência própria, aprendi a defender que tudo, absolutamente tudo, que não seja relacionado com educação, segurança e saúde, não deve pertencer a governo nenhum, sob nenhum argumento.

Sim, claro que serei execrado por isso. Mas não ligo; toda vez que me agridem por causa dessa posição, eu me lembro dos tempos da Telesp e da Embratel. Lembro de ter levado anos para conseguir uma mera linha de telefone; de ter pago os olhos da cara por ela; e de como o sistema era ineficiente.

Lembro também, quando decidiu-se pela privatização do sistema, da gritaria dos “protetores da Pátria”, dos “defensores de nosso patrimônio”, dos “heróis da soberania” e de outros autointitulados “patriotas”.

Tudo conversa fiada. O que se defendia então, como o que se defende agora, são interesses corporativistas. Não é proteger a Pátria, é proteger o interesse próprio - ou será que manter o País atrelado a um sistema ineficiente, ultrapassado, caro e que não funciona é defender a Pátria?

E preservar o patrimônio quer dizer exatamente o que? Que patrimônio seria esse? Um monte de equipamentos sucateados que não servem para atender quem deveriam - os usuários - mas que justifica amplamente o emprego de uma enorme mão de obra que não se preocupa em melhorar nada, nunca, pelo simples fato de não poder ser demitido por incompetência?

E que soberania seria essa, e exatamente sobre o que? Para mim, um país soberano é aquele que usufrui de suas riquezas de maneira equânime, divindo-as com todos os seus cidadãos. Não adianta, por exemplo, sermos donos de um mar de petróleo se esse mar de petróleo se transforma em um mar de lama e não gera riqueza para ninguém, a não ser para esta ou aquela quadrilha que desvia, rouba, faz e acontece - e enriquece e jamais é punida, porque há muitas indicações, interesses e rabos presos para que se faça alguma coisa.

Não acredito em estatais porque não acredito que existam políticos honestos em número suficiente para mantê-las funcionando como devem e fazendo o que precisam, nem aqui nem em nenhum lugar do mundo.

Estatais são geridas não por profissionais, mas por indicações cujos interesses nada têm a ver com competência, conhecimento ou domínio técnico - e tudo a ver com subserviência a quem o colocou lá, para o bem ou para mal (e geralmente, para o mal).

Não acredito em uma empresa em que decisões políticas se sobreponham a decisões econômicas e de mercado. Não acredito em uma empresa onde os funcionários não possam ser mandados embora por menos produtivos que sejam. Não acredito em uma empresa que precisa mudar de estratégia a cada novo governo. Não acredito, em resumo, em estatais.

Gerir uma empresa é algo que precisa ser feito independentemente de viés ideológicos. Exemplo petrobrasiano típico: o governo achou por bem, seguindo a sua cartilha cheia de traças, pagar mais caro por produtos e equipamentos, desde que fossem produzidos aqui, a pagar muito menos pelos mesmos produtos e equipamentos importados.

Ora, isso é de uma burrice tal que só mesmo a esquerda é capaz de defender. Para ela, não apenas faz sentido ter prejuízo, como ainda por cima ele é necessário para, de novo “proteger os interesses nacionais”.

Interesses de quem, cara pálida? Os meus, certamente, não são; prefiro não ter estatal nenhuma, mas se for para ter alguma, então que ela dê lucro.

Essa coisa de colocar a ideologia na frente do bom senso já foi sobejamente tentada antes, na antiga URSS (que nem existe mais, e principalmente por esse motivo) e mais recentemente na Petrobras. Deu no que deu.

E ainda temos que ouvir o governo dizer que o rebaixamento da empresa, que perdeu na semana passada o grau de investimento, é uma “falta de conhecimento” da agência de avaliação de risco que a rebaixou.

Com o que concordo: se a Moody’s tivesse pleno conhecimento do que fizeram com a Petrobras, já teria feito esse rebaixamento há mais tempo, e mais para baixo. Não existem desculpas que interessem ao mercado. Desculpas não revertem rombos. Explicações não invertem prejuízos. Discursos não corrigem roubalheiras.

Mas, dirão, a Petrobras já foi motivo de orgulho, mesmo sendo estatal. É verdade. O diabo é que, por ser estatal, aquela era uma condição que, cedo ou tarde, seria perdida - tanto que bastou um único governo com ideias estúpidas assumir para acontecer o que aconteceu.

Em estatais, não existe continuidade, nem transparência, nem profissionalismo. Mais cedo ou mais tarde, alguém sem o mínimo de competência vai passar a dar as cartas - e quando isso acontece por tempo suficiente e com insistência suficiente, não há gigante do mercado que resista. Como está devidamente comprovado.

Obviamente, a Petrobras não será privatizada. Melhor arruiná-la, quebrá-la, despedaçá-la do que entregá-la nas mãos dos “capitalistas”, esses monstros que adoram ganhar dinheiro - mesmo que para isso tenham que importar produtos mais baratos a pagar mais pelos seus similares nacionais, oh crime dos crimes.

Pobre Petrobras. Pobres de todos nós.