Publicado 26 de Março de 2015 - 19h05

Há tempos essa história me incomoda. Já pensei em escrever sobre o tema algumas vezes e recebi importante incentivo do colega Rodrigo de Moraes, que ocupa este espaço às quartas-feiras, para levar adiante, mas engavetei a ideia — porém, não a indignação, que só cresceu desde a campanha eleitoral em 2014.

Com os recentes protestos pelo País, resolvi tirar o assunto do armário, pois está mais do que na hora de alguém se levantar e sair em defesa da coxinha, essa autêntica iguaria brasileira cuja origem remonta a época do Império e é referência no que se convencionou chamar de baixa gastronomia.

Sim, já gourmetizaram a coitada. Primeiro quando inventaram de colocar queijo tipo Catupiry no recheio; e, mais recentemente, quando trocaram a galinha pelo pato — uma invenção do chef paulistano Carlos Bertolazzi, proprietário dos restaurantes Zena Caffè e Per Paolo, uma versão que foi parar até em feira de comida de rua em Nova York. Contudo, a verdadeira, a autêntica coxinha, resiste bravamente graças a botequeiros de carteirinha e bufês de festas (dez entre dez casamentos/festinhas de crianças servem coxinha tipo aperitivo).

É claro, também tem os usurpadores de plantão, que ousam trocar a carne de ave por carne seca, bacon, beijinho (isso mesmo!) e feijoada, e ainda assim manter o nome coxinha! Me desculpem, mas se o recheio não é de ave, não é coxinha, é bolinho. Vamos combinar assim?

Porém, me revolta e me deixa um tanto temerosa ver o termo coxinha usado para rotular um cidadão que, politicamente, é considerado “de direita”, “reaça”, “elite branca de olhos azuis” e que veste camisa da Seleção Brasileira de futebol para protestar contra o governo federal. É muito ódio para pouca massa de batata com farinha, frango desfiado, salsinha, cebolinha e outros temperinhos.

Apropriar-se de um nome de comida para depreciar o próximo não é novidade — que o diga o pastel, há alguns anos promovido a adjetivo de pessoa passiva, sossegada... Agora, o negócio envolvendo a coxinha é muito grave e preocupa os defensores da culinária nacional.

Em meus delírios, chego a imaginar, por exemplo, uma marcha anticoxinha tipo Estado Islâmico, com ataques suicidas contra templos como o Bar da Coxinha ou o Bar do Jair, duas referências no assunto, aos gritos de “morram, infiéis” — sim, radicalismo não tem limites, nunca se esqueçam disso.

Querem uma comprovação? Sabem como os tais “coxinhas” chamam os seus detratores? De empadinha! É ou não é preocupante? Não dá para ver outra iguaria brasileira em bocas de matildes sem se indignar com a falta de respeito com as nossas tradições à mesa. Em defesa da coxinha, da empadinha (de frango, de palmito ou de camarão, ao gosto do leitor) e também do combalido pastel, conclamo os filósofos e sociólogos das redes sociais a batizarem seus desafetos políticos com outros nomes que não esses. É pedir muito?

P.S.1: De acordo com o site Você Sabia (www.vocesabia.net), a coxinha surgiu em função da necessidade. Na época do Império, o Conde D’Eu, um menino da corte com problemas mentais, só comia coxas de frango. Um dia, sem ter coxas em número suficiente para servir ao garoto, a cozinheira teve a ideia de desfiar o único frango disponível e envolver o resultado em uma massa com farinha de trigo para enganar o menino. A coxinha não só foi aprovada pelo exigente comensal, como caiu nas graças da nobreza e das sinhás. Porém, a iguaria só se popularizou a partir da industrialização na região da Grande São Paulo, no final do século 19, quando passou a ser vendida nas portas das fábricas como opção de comida barata e com “sustância”.

P.S.2: Como dizem no Facebook e no Twitter, sendo chamada de coxinha em 3, 2, 1...