Publicado 27 de Março de 2015 - 5h30

No Residencial São Luiz, um dos últimos bairros que margeiam a Avenida John Boyd Dunlop, próximo a Monte Mor, as calçadas estão dando lugar a plataformas de concreto de aproximadamente 1,5 metro de altura. Nas poucas ruas que cortam o bairro, é possível observar que moradores aproveitam o embalo de quem já construiu e aproveitam para levantar pequenos muros sobre a calçada. As construções, consideradas irregulares pela Secretaria de Urbanismo, geram reclamações dos vizinhos, inclusive quando uma desses platôs fica ao lado de um ponto de ônibus.

Em Campinas, a definição do Código de Obras e Urbanismo de 1992 — onde as calçadas seriam em mosaico tipo português, com desenhos padronizados pela Prefeitura, e obedeceriam ao mesmo padrão para o quarteirão — passa longe da realidade de bairros periféricos. Não há padrão. O que se observa são degraus e, quando há pavimento, o passeio é feito com cimento.

Pela provável falta de fiscalização quando o primeiro desses “muros” impedindo acesso de pedestres foi levantado no São Luiz, outros moradores se encorajaram e seguiram a tendência. Na Rua Nelson Verdade, uma das principais que cortam o bairro, a reportagem encontrou três imóveis com a elevação de mais de 1 metro. Os cercados desses pequenos platôs abrigam vasos de plantas, bancos e até churrasqueiras nos finais de semana.

“No bairro ninguém anda na calçada. Por que não tem calçada decente. Mas construir muro e avançar as residências para fora do limite já é abuso”, criticou o aposentado Rômulo de Campos, de 62 anos. Ele conta que os muros sobre as calçadas começaram a ser erguidos há oito anos e desde então a mania pegou. “Não acho certo interromper o acesso, por mais que ele seja ruim. A maioria dos moradores respeita a lei, mas sempre tem uns, né?”, apontou a cabeleireira Maria Helena, de 64 anos.

Através de uma denúncia enquanto percorria o bairro, a reportagem chegou até uma casa na Rua Luis Ferreira da Silva, onde a proprietária do imóvel está levantando a sétima fiada de tijolos.

Segundo relatos de vizinhos que não quiseram se identificar, a proprietária, cansada de tanta gente aguardando a linha 203 (Terminal Campo Grande) do transporte público municipal em frente à sua casa, resolveu erguer o muro e espantar o povo da sua calçada. Uma árvores também foi cortada e a sombra acabou.

“Ela (a proprietária) não gostava do pessoal na frente da casa dela aguardando o ônibus e fez isso. É contra a lei, pois fere o nosso direito de ir e vir”, disse um dos vizinhos, que também não quis comprometer sua identidade. O ponteiro que demarca o ponto de ônibus fica uma casa para cima de onde o muro está sendo levantado.

O filho da dona do imóvel, Igor Henrique Tavares, de 17 anos, disse que não vai ser levantado mais nenhuma carreira de tijolos das que já estão assentadas, e que o local “melhorará a calçada”. “Olha para as calçadas e veja o tamanho do degrau para cada garagem. E outra, tanta gente faz isso aqui no bairro e por que falam só da nossa casa?”, indagou o adolescente. “Essa plataforma vai até ajudar o pessoa a esperar o ônibus. Não somos contra as pessoas ficarem aqui na frente”, completou.

Através da assessoria de imprensa, a Secretaria de Urbanismo de Campinas informou que irá mandar fiscais nos locais e de antemão informou que a prática é irregular. “Caso constatado a irregularidade, os proprietários serão intimados a desobstruir a passagem e deixar a calçada livre para os pedestres.”