Publicado 27 de Março de 2015 - 5h30

Em um país onde o atendimento em saúde beira o caos e deixa a grande maioria da população à mercê de horas de espera em filas, com unidades básicas de saúde, prontos-socorros e hospitais trabalhando em seu limite, não surpreende que uma epidemia de doença relativamente simples como a dengue traga sérios contratempos. Com a explosão de casos com sintomas graves, o que se verifica são salas de espera superlotadas por pacientes que amargam horas para um exame de diagnóstico. Diante do contratempo, muitos desistem de procurar os postos de atenção, limitando-se ao autodiagnóstico, repouso, ingestão de água e medicamentos para minimizar os sintomas mais aparentes, em atitude de risco que pode se agravar e levar à morte. Esse quadro contribui em muito para que os números que atestam a extensão da dengue nos municípios sejam sabidamente menores que a realidade, dada a subnotificação.

Em muitos municípios, já não se faz o exame de sorologia para constatar a dengue. Os inúmeros casos mostram o sistema despreparado para atender à demanda de pacientes diários, negando uma atenção mínima aos milhares que buscam um diagnóstico ou uma orientação segura. Os casos de graves sequelas e até mortes registrados mostram o quanto se deixou de cumprir no trabalho de prevenção e cuidados de saneamento.

As campanhas educativas focam no desleixo de uma parcela da sociedade que não assume a responsabilidade da falta de higiene que leva à proliferação dos agentes transmissores. Não faltam denúncias de desleixo em propriedades onde água acumulada e sujeira são criadouros propícios para o surgimento do Aedes, como mostra a mobilização dos leitores do Correio, verdadeiro “fiscais” da saúde. Mas o descaso não é somente da população. As administrações têm alta parcela de responsabilidade pela incapacidade de um trabalho constante e ativo nas áreas públicas, onde se acumulam lixo, entulhos, mato alto e sujeira, em péssimo exemplo para quem encabeça um mutirão de cidadania para conter a epidemia iminente.

Dengue é uma doença tropical conhecida há séculos. Somente a partir dos anos 80 foi identificada e combatida mais tenazmente no Brasil. De lá para cá, as aglomerações urbanas, a falta de saneamento e cuidados de higiene propiciaram o crescimento dos vetores, alastrando a doença no caminho das epidemias. Somente a consciência e um profundo trabalho de cidadania poderão conter o crescimento da dengue, enquanto o sistema de saúde se debate em alternativas para vencer a batalha contra um simples inseto invasivo.