Publicado 27 de Março de 2015 - 5h30

Warren Buffett está com 84 anos, seu sócio Charlie Munger com 91, ambos controlam o conglomerado Berkshire, a quarta empresa mais valiosa dos Estados Unidos, com valor de mercado de US$ 360 bilhões. Todos os anos, Buffett envia carta aos acionistas. A mensagem contém receituário para a continuidade dos ganhos de quem investe nos negócios da corporação. Ninguém está a questionar a idade dos responsáveis por esse case de sucesso. Na maior Democracia do Ocidente, a cronologia não é fator que impeça a continuidade de uma existência útil à comunidade.

Os Estados Unidos – país reconhecidamente pobre – leva a vitaliciedade dos juízes a sério: o magistrado judica enquanto estiver com saúde física e mental. Relato recorrente em relação à Suprema Corte diz respeito à tática para abordagem do Justice que já passou dos noventa e reluta em se aposentar. No Brasil, a tentativa de se estender a vida útil do servidor estatal até os 75 anos é considerada atentatória aos direitos dos jovens. Estes argumentam o afunilamento da carreira, o idoso a ocupar espaço reservado ao dinamismo da mocidade. Há uma dose de razão nisso, descontado o fato de que o avanço dos anos não é o único parâmetro para a vontade de produzir. Há jovens desalentados e idosos que encaram o trabalho com fervor. De qualquer forma, o cotejo custo/benefício não deve entrar na discussão?

A própria denominação da iniciativa parlamentar é pejorativa: PEC da bengala. Como se todos septuagenários, sem exceção, necessitam dessa ferramenta utilizada, independentemente da idade, também por outros motivos. O mais costumeiro, a fragilidade dos membros ou o uso em não raras fraturas. Também é malconduzido o debate. Argumento reducionista é a alegada tentativa de inibir a Chefia do Executivo de prover vagas deixadas pelos ministros dos Tribunais Superiores. Como se a nomeação direcionasse, inevitavelmente, o tom dos julgamentos a favorecer o benfeitor. O STF, como regra, não tem se comportado de forma. Cada julgador se imbui de responsabilidade peculiar e grave. São grandes questões que estão em jogo, não a pretensa gratidão ao detentor do cargo que exerceu a atribuição formal de indicá-lo.

O tema é relevante e merece reflexão.

Primeiro, a longevidade dispensa provas. Não é incomum verificar nos necrológios o passamento de centenários. Isso evidencia que os setenta encontram a maioria em plenas condições de continuar a oferecer seus préstimos à nacionalidade. A experiência de quem permaneceu décadas a prestar serviços especializados tem sido menosprezada. São profissionais aptos à continuidade de trabalho que não necessita de força muscular, senão do intelecto.

Segundo, a crônica insuficiência de recursos financeiros e as aposentadorias precoces conduzirão o sistema previdenciário a inevitável colapso. Não é preciso ser cientista para prognosticar breve insuficiência de fundos a satisfazer proventos e pensões. Até a tendência assistencialista oficial constatou que alguns contraem núpcias e garantem pensão por outras décadas para os jovens contraentes. O amor não tem parâmetros, mas o Erário tem restrições. Profissionais que se devotaram a uma atividade especializada são desligados de setores nos quais a experiência é fundamental à continuidade e aprimoramento dos serviços.

O Brasil está a tratar seus idosos da mesma forma com que vem negligenciando o cuidado com a natureza, com o patrimônio histórico e cultural, com as tradições e com os valores. Basta examinar o abandono dos monumentos, a pichação dos edifícios, a sujeira que se acumula e dá uma triste sensação de falência civilizacional. Examine-se a qualidade da produção acadêmica e jurisprudencial. Compare-se a erudição dos antigos e o maltrato ao idioma hoje prodigalizado. Não é necessário ser filólogo para a constatação de que já fomos melhores do que somos. Entretanto, desperdiçam-se talentos, despreza-se o investimento que a sociedade fez na formação de especialistas, justamente no momento em que faltam vocações e proliferam os que buscam emprego público e suas garantias. Estaria com a razão o antropólogo Claude-Lévy Strauss? A ele se atribui haver afirmado que “o Brasil chegou ao declínio, sem ter passado pelo ápice”.

Com a palavra o Parlamento, “caixa de ressonância das aspirações populares”, sempre a instância mais apropriada a detectar o que é melhor para esta complexa e desafiadora Nação, ora a enfrentar mais um calvário.