Publicado 25 de Março de 2015 - 5h30

Há pouco, nos principais periódicos europeus, declarou-se que “a família tradicional é uma moda que não passa, ao ponto de dizermos ‘não’ à adoção de crianças pelos gays. Chega de filhos sintéticos e de barrigas de aluguel. Os filhos devem ter um pai e uma mãe”. Errou quem atribuiu a afirmação a algum famoso padre, pastor ou rabino: a autoria dessas linhas pertence ao casal homossexual de estilistas italianos mais famoso do mundo. No dia seguinte, o mais famoso cantor gay britânico, que tem um filho adotado, conclamou uma espécie de “inquisição rosa” no mundo ocidental contra os dois estilistas.

Hoje, estar razoavelmente convencido de umas ideias sobre alguns assuntos pode ser perigoso. Para o sujeito “convicto” e para suas relações sociais. E me refiro a uma convicção formada racionalmente que, mesmo no debate social, deixa de ser considerada uma variável na complexa equação dos argumentos de razões públicas, não porque seja fruto de um fundamentalismo religioso ou de um fanatismo ideológico, mas porque não é politicamente correta. Entretanto, não se prega a tolerância como um valor democrático?

Originariamente, a tolerância surgiu como uma prática social a serviço de uma sadia convivência nas sociedades europeias, cansadas do problema das guerras religiosas. Até um abade francês, Saint-Pierre, resolveu escrever um verdadeiro projeto, na forma de livro, para tornar perpétua a paz na Europa, baseado na ideia de que a tolerância política e as leis seriam capazes de fazer reinar a harmonia no Velho Continente. Locke e Rousseau também enfrentaram a questão. Mais tarde, foi a vez de Kant dar sua contribuição intelectual ao mesmo problema. Bem ao estilo germânico, o que, invariavelmente, quer dizer muita profundidade reflexiva e muita página para explicá-la.

No Ocidente, com o tempo, a tolerância foi deixando de ser uma forma de convivência e respeito pela liberdade alheia para se transformar num valor e, hoje, sob o influxo da onda do politicamente correto, por mais paradoxal que pareça, tornou-se uma espécie de desvalor, porque passou a uniformizar as consciências em prol da ditadura do pensamento único.

Em outras palavras, antes, a tolerância estava em aceitar pontos de vista divergentes sobre o mesmo tema, mas combatendo-os criticamente. Depois, a tolerância consistiu em aceitar todos os pontos de vista como se fossem igualmente válidos. Agora, é obrigatório concordar com a resposta politicamente correta para a pauta social em questão.

Nesse caldo civilizacional, resta curioso notar que, ao cabo, ao se impor um único argumento de razões públicas – o do politicamente correto – a tolerância faz-se intolerante. Os grupos mais aparelhados passam a pressionar o Estado para que vigie a sociedade cada vez mais de perto, a fim de colocar uma mordaça existencial em que ouse discordar, com um argumento equivalente ou melhor, num determinado assunto.

A lógica do patrulhamento sobre os “politicamente incorretos” é a de que as ideias que “discriminam” são intolerantes, porque, quando levadas à prática, violam os “direitos” dos demais. Assim, para salvaguardar a tolerância social, é preciso restringir a vez e a voz desses “desajustados políticos”, porque são portadores de posicionamentos “discriminatórios”.

A tolerância dos intolerantes converte as discrepâncias em diferenças irreconciliáveis e não abre espaço para um entendimento social dialógico, porque a única forma de resolução dos conflitos sociais, principalmente se envolvem valores, dá-se pela via do decisionismo político, a imposição arbitrária de uma vontade política em detrimento de outras equivalentes ou melhores.

A tolerância é, sem dúvida, um grande valor social. Mas a tolerância termina perante a intolerância do politicamente correto. Ponderar a convicção alheia? Nada contra. Desde que a convicção alheia pondere e não silencie todo o resto. Com respeito à divergência, é o que penso.