Publicado 23 de Março de 2015 - 5h30

Ao declarar a Venezuela uma ameaça extraordinária para a segurança nacional e política externa dos Estados Unidos, o presidente norte-americano Barack Obama deu ao presidente venezuelano Nicolás Maduro exatamente aquilo que este almejava: poderes ilimitados para governar com mão de ferro seu país. Obama também congelou bens e impediu a entrada no país de sete autoridades venezuelanas acusadas de violações dos direitos humanos.

Imbuído da índole de ditador de republiquetas e alegando uma possível intervenção norte-americana, o presidente venezuelano pressionou a Assembleia Nacional a aprovar a “Lei Habilitante”,, também chamada de lei anti-imperialista, que lhe dá poderes para governar até o final do ano por decreto. Era tudo que Maduro queria. Agora ele pode marcar de inimigo da pátria, e prender, quem discordar do seu governo. Aliás, ele já vinha fazendo isso de fato. Maduro já colocou na prisão o líder da oposição Leopoldo López e recentemente o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma. Outro opositor, Rodolfo Gonzalez, foi encontrado morto na prisão. Também autorizou a polícia a atirar em manifestantes durante protestos. Um estudante foi morto. Com os superpoderes, ele pode fechar espaços de mobilização política, num ano em que ocorrem eleições legislativas, às quais as previsões indicam que o chavismo chegaria com 20 pontos de desvantagem ante a oposição.

A linha dura de Maduro tem gerado preocupação em países fora do continente, que manifestaram temor com a situação de instabilidade. No entanto, gera estranhismo o fato de organizações como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e Mercosul ficarem quietas com o arbitrarismo que ocorre na Venezuela. As entidades criticaram a postura de Obama, mas se calaram diante da escalada de autoritarismo. Em outra demonstração de força, Maduro conseguiu com que os 11 países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) apelassem ao presidente norte-americano para anular o decreto no qual considera a Venezuela uma ameaça. A Alba também não se manifestou sobre o autoritarismo de Maduro.

O Brasil mantém um silêncio que beira a cumplicidade com as atitudes de Maduro. Mas não deveria. É necessário demonstrar uma posição mais firme em defesa dos direitos humanos, da liberdade de expressão e da democracia. O Brasil ainda é um líder natural da América Latina e sua posição certamente teria repercussão junto aos países vizinhos, que refletiriam no governo venezuelano.