Publicado 02 de Março de 2015 - 5h30

Num momento em que o País passa por grave crise econômica, com inflação em alta, perspectivas nada animadoras para o setor industrial, e em meio a discussões para reduzir os gastos públicos, a Câmara dos Deputados age de forma acintosa e vergonhosa ao conceder a cônjuges de deputados o direito a passagem aérea para se deslocar do Estado de origem a Brasília e vice-versa.

A extravagância com dinheiro público é o pagamento de uma promessa feita pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) às mulheres dos parlamentares durante a campanha que o levou à presidência da Casa. A tentativa de beneficiar familiares com passagens já havia ocorrido em 2009, mas foi barrada diante do escândalo conhecido como “Farra das Passagens”. Agora está liberado às custas do contribuinte.

Mas, não é só isso. A benesse com o chapéu alheio faz parte de um pacote maior aprovado no dia 25 em favor dos ilustríssimos deputados (Correio, 26/02, A24), que eleva os gastos daquela casa em R$ 145 milhões. O pacote aumenta as verbas de gabinete, a remuneração de assessores e o auxílio-moradia dos deputados que não ocupam apartamentos funcionais. Então fica assim: um deputado federal, cujo salário é de R$ 33,7 mil, vai receber mais R$ 4,2 mil para ficar duas ou três noites por semana em Brasília. Nesse momento, vale lembrar que o salário mínimo recebido pela maioria dos brasileiros é de R$ 788,00.

Cunha justificou o reajuste dizendo que não representa mais gastos para a Casa, pois serão cortados os mesmos valores em prestação de serviço, contrato de informática e redução de horas extras. Segundo ele, o gasto com a verba de gabinete destinada ao pagamento de funcionários, reajustado em 18%, corresponde ao IPCA acumulado desde 2012.

A inclusão das passagens aéreas para cônjuges rompe a barreira do bom-senso e reforça a visão já estereotipada sobre os políticos de sanguessugas do dinheiro público. Diante da repercussão negativa, alguns parlamentares já anunciaram que não vão usar a verba. É esperar para ver. Um detalhe interessante é que o pacote de cortesias com o chapéu alheio passa a vigorar no dia 1 de abril. Uma data bastante sugestiva.

Contrastando com tanta pujança, aqui na América Latina temos o exemplo do presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, que mora em uma casa de apenas um quarto na fazenda de sua esposa, dirige um fusca 1978 e doa mais de 90% de seu salário de US$ 12 mil à caridade.