Publicado 02 de Março de 2015 - 5h30

Em uma reportagem publicada pela Folha de S. Paulo, o Juiz Federal Flávio Roberto de Souza, acusado de ser flagrado utilizando o veículo cuja apreensão foi por ele próprio determinada, teria dito que a utilização de bens apreendidos pela Justiça seria uma “prática absolutamente normal”, adotada por “vários juízes”.

Não é preciso dizer que tal afirmação não é verdadeira. Utilizar em proveito próprio bens apreendidos por decisão judicial é uma conduta ilegal e absolutamente inaceitável, tanto mais se praticada por um magistrado. Mas não é esse o enfoque que pretendemos dar ao caso. Como sempre, de fatos desagradáveis e ruins podemos extrair boas lições. Nesse intento, penso que podemos nos centrar num aspecto da questão, que é considerar “normal” o que é antiético e, por consequência, agir de determinado modo com a justificativa de que outros o façam.

Muitas vezes nossos filhos nos insistem para obter algo — um celular, por exemplo — com a justificativa de que todos os colegas de escola o tenham. Outras vezes, os jovens ou adolescentes teimam em querer ir a uma festa ou frequentar determinado local — que não nos parece apropriado — com o simples argumento de que “todo mundo” vai a tal lugar ou age de determinado modo. E muitos pais, mesmo que tenham fortes convicções acerca dos valores que pretendam transmitir aos filhos, ficam perplexos e sem saber como agir diante dessas situações.

Um dos maiores desafios de todo educador no mundo moderno é saber manter suas convicções apesar das inúmeras pressões do ambiente. Trata-se de saber ir contra a corrente quando o bem dos nossos filhos ou alunos o exigirem, tendo a fortaleza para buscar o que é bom e valendo-se exclusivamente de meios éticos para atingir esse fim, custe o que custar.

Para isso, o que se exige do educador é que tenha convicções sólidas. Mais ainda, que medite com frequência nos fundamentos dos valores que tem e transmite, buscando as suas razões mais profundas. E, depois, que aja em sua própria vida de maneira coerente com o que acredita.

Mas não basta ter convicções firmes e agir em coerência com elas. Apesar disso, nossos filhos e alunos nos questionarão e, muitas vezes, os maus exemplos, inclusive de pessoas investidas de autoridade, parecerão retirar a força do que lhes dizemos e ensinamos. Nesse contexto, o grande desafio é compaginar intransigência com serenidade, fortaleza nas decisões com delicadeza na forma de conversar e agir.

Lembro-me de um diálogo que presenciei entre um pai com o seu filho de dez anos. “Pai, por que não posso ter um celular?”. “Filho, já te disse que há uma regra em nossa família: não ter nada que não seja necessário”, respondeu serenamente o pai. “Mas todos os meus amigos de classe têm celular”, insistiu o garoto. “Talvez para eles isso seja necessário, ou talvez não tenham essa regra em casa”, respondeu o pai. “Mas quando eu vou poder ter um celular?”, continuou o filho. “Quando eu e a sua mãe entendermos que você precisa disso”, concluiu. O menino não se deu por satisfeito e prosseguiu argumentando com algumas situações em que o equipamento poderia ser útil, todos rebatidos com imensa paciência pelo pai.

O incidente em si parece não ter muita importância. No fundo, porém, penso que aquele pai estava formando um grande homem. Chegará um momento em que o filho — já adulto — talvez queira ter um “Porsche Cayenne”. Então saberá fazer duas indagações fundamentais antes de adquirir o produto: 1. Esse veículo é necessário para mim neste momento? 2. Que meios lícitos e éticos disponho para adquiri-lo?

Aquele rapaz, se aproveitar bem os ensinamentos do pai, não se importará nada com o que os outros pensam ou fazem, pois as suas escolhas e decisões estarão pautadas pelo que é correto e pelo que é bom. Afinal, o único caminho para se alcançar a felicidade verdadeira é seguir a voz de uma consciência bem formada.