Publicado 01 de Março de 2015 - 5h30

Uma exposição fotográfica montada na Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), aberta ao público desde ontem, conta a história do comércio na cidade, com fotos de época e depoimentos colhidos junto a empresários pioneiros. Quem passa pelo saguão de entrada se emociona com imagens que remetem à formação do núcleo urbano e resgatam a memória das relações comerciais que ajudaram a construir a metrópole.

A mostra Campinas de Muitos Caminhos foi montada ainda em 2010 por um grupo de pesquisadores do Sesc, e se manteve por um curto período em exposição na sede da entidade, perto da Rodoviária. “Agora, no Centro, um número muito maior de pessoas vai poder apreciar uma coleção riquíssima de imagens”, fala Adriana Flosi, presidente da Acic.

A pesquisa tomou por base o Museu da Pessoa, projeto cultural do Sesc que, desde 94, resgata e publica a história a partir de entrevistas com moradores de uma cidade. E, para a mostra campineira, foram ouvidos mais de 50 empresários, fundadores ou mantenedores de empreendimentos tradicionais. E as frases — publicadas em livro e editadas em vídeo — são manifestações emocionadas de acontecimentos. Causos tristes ou engraçados, mas inesquecíveis.

Quem passeia pelo saguão desde quinta-feira, quando a mostra foi aberta, fica encantado com o que vê. O aposentado Antônio Joaquim Novo, de 75 anos, ouvido anteontem pela reportagem, diz que foi incrível a sensação de ver as fotos das fachadas antigas, e ler depoimentos de lojistas que ele conheceu ainda adolescente. “É incrível. Eu me lembro dessa gente fotografada, dessas paisagens. É muito legal saber a história de gente que trabalhou tanto, que fez a vida aqui na cidade”, falou.

Até estudantes adolescentes se surpreenderam com a exposição quando passavam pela Acic e resolveram vasculhar a mostra. O interessante é que o ambiente é decorado com baús, caixas registradoras, ferros de passar a brasa, leiteiras, ferramentas. Peças que, no passado, eram expostas em vitrines e balcões.

Alguns estabelecimentos estampados nos painéis históricos seguem firmes, até hoje, e colecionam gerações de clientes. Caso da Bicicletas Lunardi, que desde 1951 funciona na esquina das ruas Visconde de Rio Branco e 13 de Maio. O espaço — 30 metros quadrados — continua o mesmo. E as rodas e pneus servem para decoração do ambiente. O dono do espaço é Edson Roberto Lunardi, de 59 anos, que herdou o negócio do pai.

“Eu nasci aqui. Desde pequeno atendia no balcão. Cresci, me formei na faculdade, mas nunca deixei o comércio. A única coisa que mudou foi o entorno. Não tem mais o bonde, não tem mais o Teatro Municipal. Nem o público elegante que fazia compras no Centro. Mas assim é o progresso. Vieram os shoppings, apareceram bicicletarias nos bairros. Mas, com o maior orgulho, digo que tenho clientes do tempo do meu pai. É muito legal quando as pessoas confiam, percebem a seriedade do trabalho. Vou ficar aqui até morrer”, fala Lunardi.

Macarrão

Outro estabelecimento fundado há 64 anos, e que também é destaque da exposição da Acic, é a fábrica de macarrão inaugurada na Rua Conceição pelo Pastifício Selmi. O negócio foi fundado por Marino Selmi, cidadão que partiu deste mundo em 1977. O filho Fernando herdou o negócio e já prepara seu sucessor. Rodrigo Selmi, neto do fundador, de 32 anos, hoje opera o mesmo maquinário sexagenário fundos, como os cilindros e as amasseiras.

Nem o piso do estabelecimento mudou. A mercadoria vendida ainda é pesada na histórica balança Hobart-DAyton, e o mesmo balcão frigorífico da fundação guarda os pacotes de lasanha, gnochi, raviolli e caneloni. Massa sagrada de todas as mesas. “Hoje atendo os netos dos clientes do meu avô”, fala, todo orgulhoso. Modernização? Teve sim. Agora o balcão também tem os pratos embalados, pré-cozidos. Basta despejar o molho e esquentar. “A minha mulher está grávida. Acho que a empresa passa à quarta geração”, diverte-se.